quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Miudinha

Um sorriso para o Ano Novo!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Um trem...

Um tremmmmmm passou devagar. Os trens e seus peculiares ruídos. Houve tempo em que eles eram o máximo no Brasil, com seu saculejar sonolento. O trem que ouvi passou ao longe e era noite de céu escuro. Nem sei se esse trem existe mesmo ou se é fantasmático, extraído de minha memória de infância. Enquanto o ouvia, imaginário ou não, fiz minha viagem para algum lugar inesperado. Depois disso, sei que dormi um sono de anjos. Sei que sonhei sonhos bizarros e estremeci na cama estranha, de colchão pouco amortecido. Pela manhã havia sol e pássaros cantando. Cães latiam e crianças brincavam pela vizinhança. Despertei e fui continuar vivendo, a aproveitar os momentos que não se cansam de rolar ao largo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A boa nova é:

Pós em Cinema do Centro de Ciências da Comunicação da UCS a partir de abril de 2010!! Sem mais suspense, embora Hitch seja sempre lembrado, a Especialização conta com os melhores nomes da área cinematográfica do Rio Grande do Sul e do Brasil, mestres e doutores. Assim que eu voltar do recesso conto tudo para vocês!! Por agora, um ótimo Natal e Ano Novo a todos! Carpe Diem!!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


Andantes são os caminhos para se chegar até aqui. E não é ponto final. Ouço o último de Norah Jones e sinto uma alegria de criança descobrindo brinquedos. Cada música é um. Cada som, ludicidade. Eu me pareço com isso agora que estou me sentindo leve, sem dramaticidade ou inconstância. Somente uma alegria infantil de coisas dadas por terminadas e novas por começar.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Perco coisas em casa. Papéis que desaparecem. Canetas. Estampas das coisas... Parece que tem um Triângulo das Bermudas por aqui. Mas nada de pânico. Tudo se ajeita, se acha, se recolhe.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Torcicolo...

Um torcicolo é algo muito estranho, não é mesmo? Vem do nada e fica aquela sensação de pedregulho no pescoço. Pois, acordei assim. Depois de 12 bancas de monografia, aulas, exames e tudo o mais, um torcicolo. A Elaine, minha amiga, diz que o corpo sabe quando pode dizer chega. Acho que o meu até demorou para isso. Nada que um bom medicamento específico não resolva. Por hoje vou tentar relaxar e dizer que tudo valeu a pena porque a alma não é pequena, como nos ensinou Pessoa.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Queria um verso bem bonito. Uma frase elegantemente escrita ou dita. Um reflexo no espelho do meu coração. Uma pérola, uma esmeralda. Queria Pessoa abarcando meus barcos que teimam em ficar no cais. Queria uma porção de coisas, como assistir Avatar e matar a curiosidade ou simplesmente tomar um licor de avelã... Queria...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Saudade daqui!

Bateu assim uma saudade imensa de vir aqui e postar. De ter tempo para pensar no que escrever e rir à toa das coisas da vida. Final de semestre parece maratona, sei lá. É excesso de trabalho e de festas. Não sei quem inventou isso (o capitalismo selvagem, provavelmente), mas é de destroçar a criatura. Estou a ler monografias que não têm mais fim. Estou a esperar pelas férias que parecem cada vez mais distantes. Contudo, estou bem humorada. Penso no recesso de Natal e Ano Novo e me dá alívio. Férias mesmo mesmo não vou ter porque estarei trabalhando no meu projeto de doutorado. Único tempo disponível que terei para isso. Mas será um tempo de leitura, escrita, pensamento. Tem coisa melhor? Deve ter, mas eu me contento com o intelecto também!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Eles

Chegou o momento, ele pensou. Tragou o cigarro. Olhou o relógio. Coçou a testa. Seria uma aventura encontrá-la depois de tanto tempo. Esse tempo contado em décadas o assustou um pouco. Mas, sim, seria bom revê-la. Ficou ali, olhando por trás da vidraça do Café. Esperou o mais que pode até descobrir que ela não viria.

Chegou o momento ela pensou. Passou batom novamente. Olhou o relógio. Continuou no carro. Seria uma aventura encontrá-lo depois de décadas. Isso era assustador. Mas, sim, seria bom revê-lo. Ficou ali, olhando pela janela do carro. Esperou até perceber que esse encontro seria como entrar no passado e revirá-lo. Ligou o motor. Fugiu.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Ganhei livros. Uma vontade enorme de estar em férias para poder ler sossegada. Ganhei amigos. Queria ter mais tempo para eles que iniciam agora seu percurso em minha vida. Não ganhei uma porção de coisas que eu queria, mas tive dádivas que não se trocam por nada: livros e amigos. É bom conviver com eles.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Normalidade

O sol brilha e faz um calor de Macondo. Ouso sorrir e vejo que é bom. Ouso sonhar coisas impossíveis e vejo que há alegria nisso. Já não me perturbam as animosidades, as tristezas. Uma vez, alguém me disse guerreira e não acreditei. Hoje vejo que sim. Venço uma batalha por vez. Capitulo, às vezes. Mas sempre volto renovada desse lugar de desesperança provisória.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sim, ainda estou aqui. Reclusa. Triste. Assoberbada. Mas os dias vão fazendo voltas sobre eles mesmos e a gente se enreda e desenreda o tempo todo. Dias desses teço uma teia bem linda...

sábado, 21 de novembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Índios

Composição: Renato Russo

Quem me dera
Ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro
Que entreguei a quem
Conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora
Até o que eu não tinha

Quem me dera
Ao menos uma vez
Esquecer que acreditei
Que era por brincadeira
Que se cortava sempre
Um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda

Quem me dera
Ao menos uma vez
Explicar o que ninguém
Consegue entender
Que o que aconteceu
Ainda está por vir
E o futuro não é mais
Como era antigamente.

Quem me dera
Ao menos uma vez
Provar que quem tem mais
Do que precisa ter
Quase sempre se convence
Que não tem o bastante
Fala demais
Por não ter nada a dizer.

Quem me dera
Ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.

Quem me dera
Ao menos uma vez
Entender como um só Deus
Ao mesmo tempo é três
Esse mesmo Deus
Foi morto por vocês
Sua maldade, então
Deixaram Deus tão triste.

Eu quis o perigo
E até sangrei sozinho
Entenda!
Assim pude trazer
Você de volta pra mim
Quando descobri
Que é sempre só você
Que me entende
Do iní­cio ao fim.

E é só você que tem
A cura do meu vício
De insistir nessa saudade
Que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera
Ao menos uma vez
Acreditar por um instante
Em tudo que existe
E acreditar
Que o mundo é perfeito
Que todas as pessoas
São felizes...

Quem me dera
Ao menos uma vez
Fazer com que o mundo
Saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz
Ao menos, obrigado.

Quem me dera
Ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado
Por ser inocente.

Eu quis o perigo
E até sangrei sozinho
Entenda!

Assim pude trazer
Você de volta pra mim
Quando descobri
Que é sempre só você
Que me entende
Do início ao fim.

E é só você que tem
A cura pro meu vício
De insistir nessa saudade
Que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos
E vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O espelho

Quando olhou através do espelho, porque foi através mesmo, viu alguém do outro lado, no fundo. Alguém agachado, escondidinho. Quis tocar a superfície para ver se a mão alcançava o outro. Teve medo. Premonição de algo terrível que só os espelhos proporcionam. Lembrou de Borges, Cortázar, Poe. Como é que a imagem dele era aquela e não... a dele? Aquele ser enrodilhado era ele também? O que deveria fazer, aflito, no meio da noite, vendo uma imagem sofrida no espelho? Esperou um pouco, talvez ele levantasse e os dois trocassem um olhar de cumplicidade. Quem sabe o outro era ele mesmo e se descurvasse a qualquer momento. Ouviu um gemido, como o de uma criança chorando. Finalmente tocou a superfície gelada do espelho e esperou. Nada aconteceu. Apenas viu que o outro soluçava. Fechou os olhos por alguns segundos. Ao abrir, viu-se no espelho, normalmente. A criatura "por trás do fundo do espelho" sumira. Ele agora podia lavar o rosto descansado.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Canteiros

Composição: Fagner / sobre poema de Cecília Meireles

Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade

Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento

Pode ser até manhã
Sendo claro, feito o dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria

Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza
E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza ...
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida

domingo, 15 de novembro de 2009

depois...


"A gente está fazendo o que pode". Essa frase eu tenho ouvido muito nos últimos dias. Sim, fazemos o possível, que às vezes parece tão pouco, apesar do esforço, apesar da boa vontade de todos. Um amigo é o sal da vida. A pimenta e o açúcar. É tudo o que há de mais precioso, por isso, pelos amigos nos quedamos e abreviamos o tempo. Fazemos do possível matéria viva. A hora exige. Não há mais o que decidir a não ser pela autenticidade. Que cada um dê o seu melhor enquanto existe a vida, depois. Depois, ninguém sabe.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Salvar postagem. Publicar agora. Nada. É sexta 13 de um novembro difuso, desnorteador. Aos que se abrem à vida a acolhida é breve. Assim transitamos pela existência, no caldo doce das horas. Publicar postagem. Salvar agora...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Disposta a ouvir, encontrei o que temia. Querendo falar, esbarrei no horizonte. Agora, só olho e vejo. Isso tem sido o suficiente.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Meio twitter

Que armadilhas são essas que povoam meu imaginário?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Eu ainda não encontrei o que estou procurando

I have climbed the highest mountains
I have run through the fields
Only to be with you

I have run I have crawled
I have scaled these city walls
Only to be with you


But I still haven't found
What I'm looking for
But I still haven't found
What I'm looking for

I have kissed honey lips
Felt the healing fingertips
It burned like fire
This burning desire
I have spoken with the tongue of angels
I have held the hand of the devil
It was warm in the night
I was cold as a stone

U2

domingo, 8 de novembro de 2009

José Saramago

Sem meus personagens, não seria quem sou; sem eles, talvez a minha vida não fosse nada além de um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras, a existência de alguém que podia ter sido e não chegou a ser.

sábado, 7 de novembro de 2009

Berlim

Penso no céu de Berlim. Aquela imensidão. E as ruas, tão largas, no centro. A torre com o anjo. A padaria em que ouvi tocar música brasileira. Os olhos lindos da atendente.Mas, mais que isso tudo, lembro dos passeios pelas calçadas e a igreja com a parte demolida por uma bomba. Berlim... Zoo Station... Enquanto o sábado cresce em nós, a memória serpenteia através do tempo. Faço planos de uma viagem para algum lugar já conhecido ou não. Indecisa, deixo as lembranças me roubarem os pés do chão. É quase como sonhar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Sabe o coelho da Alice? Pois eu pareço com ele. Correndo, que pressa, meu Deus, vamos lá, tá na hora, tá na hora... Ufa! Cansei! Mas, há muito o que agradecer, até por esse cansaço. É daqueles que eu digo bom, porque a gente se realiza no que está fazendo. Trabalho, amor, vertigem de hemisférios e múltiplas possibilidades. E a vida segue seu curso...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Emudeço. Há luz e estou feliz. Mas emudeço, assim, como se as palavras se desapegassem de mim...

sábado, 31 de outubro de 2009

Luz e Cor

Calor delicioso. Sol. Arestas. Flores nos pequenos jardins. Há tanta vida lá fora, diria Lulu Santos. Sim, há muita vida lá fora e nós amamos o que nos cerca. Esse entorno. A divisão de águas. Arbusto e árvore. Pedras. Água corrente. A natureza se remói e reconstrói nessa estação primavera, que chega tardiamente ao Sul. Sinto os cheiros. Vejo as sombras mais eloquentes. O amor está no ar, disse-me um amigo que vai casar em breve. Espero que o feriadão seja de muita luz e cor. Carpe Diem!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Anticristo


Lars von Trier. Arremesso na dor mais pungente. Um punhado de cólera e anarquia. O imaginário de uma perda. A luta para sobreviver a ela. Os recalques, os traumas. Angústia.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O coração estremeceu, como as pernas e braços. Eu não lembrava mais dessa sensação da dor de saber o que não se deseja. Me recomponho como posso e sigo adiante. Tenho fé. Já me disseram que tenho muita. Como a que um dia eu vi nos olhos de minha avó? Não chega a tanto. Mas é uma fé ardorosa na natureza, no limiar das coisas, na mão de Deus sobre os homens. Agora, mais que nunca, faço minha oração. Que esse coração quebrantado veja a luz. O meu, e o dele.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

As tears go by

Rolling Stones
Composição: Jagger / Richards

It is the evening of the day
I sit and watch the children play
Smiling faces I can see
But not for me
I sit and watch
As tears go by

My riches can't buy everything
I want to hear the children sing
All I hear is the sound
Of rain falling on the ground
I sit and watch as tears go by

It is the evening of the day
I sit and watch the children play
Doing things I used to do
They think are new
I sit and watch as tears go by

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Artesã de Ilusórios

Minha amiga Letícia Palmeira lançou seu livro na semana que passou. Estou nele também, porque fiz um texto para a contracapa. Aqui, um dos saborosos escritos dessa escritora singular:

Anjos

Quanto a mim, que sou sangue e batalhão de borboletas escondidas na multidão que segue estrondos. Eu que sou amplitude, momentos e manchas na obra que tento desfazer, desejo engolir o tempo. Causo tanto mal e como escravo de minhas ações, me encarrego dos reparos. Demônios não seguem regras que não sejam perversas. Mas tenho sido infiel. Indigno de meu templário. Ornamentei altares e ajudei cegos a encontrarem seus caminhos. Consertei o que de quebrado havia em obras de arte. Chorei ao velar os mortos que se uniram ao meu lado oposto. Comunhão e pecadores na missa de domingo e pelo fim de minha espécie, fiz leitura em via pública de livros que entortam as vigas de meu santuário e agora, não sei o que será de mim. Até anjos revoltos entram em crise. É a modernidade nos levando ao fim.

‑­



sábado, 24 de outubro de 2009

Clarice

“Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso. Lê a energia que está no meu silêncio” (LISPECTOR, 1998, p. 28).

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Escombros do mundo

Outubro, 23. Manhã de luz que arrebenta a retina. Olhos entreabertos, sem óculos de sol. Um suco de manga. Uma maçã no escuro. Ai! Clarice, me acode agora que entrei nesse desvario de dizer que a vida é coisa de ficção. Queria ter as costas aladas, como as de um anjo e assim me ver em Berlim, com Cassiel. Queria que o mote da desilusão não doesse a dor que dói. Precisava de mais alguma coisa que me foge agora à memória. Necessitava de um sopro qualquer, um tufo de vento nos meus cabelos compridos. Queria ser espécie rara, nativa, irreal. Porém, me vejo pequena diante dos escombros do mundo...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Desde ontem, por conta de uns acontencimentos da vida, estou um tanto pensativa. Meio (in)quieta, meio triste. Há momentos em que nada podemos fazer pelo outro e isso nos destroça. Saber de uma fragilidade, de uma doença, de um luto e não poder ajudar. Isso me destrói. Contudo, por conta da terapia, respirei fundo e aprendi a despensar para não enlouquecer. Gostar pode causar danos a nós e aos outros, esse aprendizado é novo. Há momentos nos quais o maior carinho ainda é calar e a maior solidariedade é apenas um abraço. Por isso, abraço e calo, sem culpa.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Por vezes todos se calam. Não há o que fazer a não ser esperar. É como em GGM (Ninguém escreve ao coronel), ir todo dia no portão verificar se chegou alguma correspondência. Calar é também um modo de dizer. O mais refinado e tímido, ou o mais atiçado e louco. Também eu me calo tantas vezes. O bom é saber que é possível voltar a falar. De tudo um pouco: arte, intimismo, cinema, melodia, coisa alguma com sentido algum. Escrever é mesmo um grande mistério...

domingo, 18 de outubro de 2009

Transtorno

Ela me disse isso: "Intenção, atenção e nenhuma tensão". Perguntou se eu entendia. Ela estava maníaca, língua solta, gestos largos. Foi a primeira vez que a vi e provavelmente seja a última. Nossos dias e horários são diferentes, mas essa semana ela se enganou e foi no meu. Ela estava tão louca que eu só soube concordar. "Você acredita em Deus?". Sim, eu disse meio baixinho. "Ainda bem!!" Fiz que sim com a cabeça e me perguntei porque ela estava ali, naquela poltrona esperando que ele abrisse a porta se era para mim que ela seria aberta. Fiquei confusa por um instante. Talvez eu é que tivesse errado o dia e a hora. Mas não, era ela, lendo em voz alta para mim um livro de auto ajuda. De repente, chega uma mulher mais velha e igualmente alterada. Olhos arregalados, bufando por ter caminhado muito. Pensei: a coisa está ficando pior. Elas conversavam, mesmo tema: "Intenção, atenção e nenhuma tensão". Foram alguns minutos que pareceram horas. Então, porta aberta, olhar inquiridor, ele disse que o horário dela era mais tarde. Bem mais tarde. Foram-se as duas. Entrei.

sábado, 17 de outubro de 2009

Caio Fernando Abreu, Caio F.

"Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo outra vez."

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Pra ficar contigo

Eu queria te beijar e beijar longamente. Esquecer das horas. Ficar aninhada. Colada. Grudadinha. É um querer tão bonito que me deixa estonteada. Peço logo um carinho que vem naquele toque peculiar nos cabelos. Gosto dos teus dedos assim, alisando meu cabelo. Gosto de ficar inquieta quando o carinho não se desdobra em algo maior. É bom também somente imaginar. Hoje, por conta de uma colega, gargalhei. E, queria muito te dizer isso, não sou uma pessoa de gargalhadas. Sou sempre pelo sorriso, o afago, o apego. Mas ela me fez rir daquele jeito tão novo que todos ficaram espantados e riram em seu espanto mútuo. O que isso tem a ver com eu querer te beijar e beijar? Nada, ué. Apenas gosto de te contar todas as coisas que me acontecem. Porque assim nunca me perco de ti.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Paz

Estar em paz é como uma promessa. Eu tenho que pagar por ela. Tenho que me devotar e escolher caminhos. O que estou semeando será sempre em nome da paz. Em mim, nos outros. Sem o outro, estamos perdidos. Reverencio solenemente os momentos de paz, já que eles não persistem. São da ordem das coisas inefáveis. São curvilíneos, esses momentos. Enroscam-se, nos abraçando suavemente. Deles retiramos a força para a continuação de tudo. Estar em paz é orar para si mesmo, crente em toda a nossa própria determinação e fé. Estar em paz ultrapassa o lugar, o hoje, o amanhã. Creio que desses movimentos circundantes de pacificidade em nós, nasça o que há de mais belo: as batidas de um coração no ventre da mãe.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Uma carta revisitada


A coisa mais estranha que pode existir é você ler uma carta escrita por você, décadas depois de tê-la enviado. De repente, caiu em minhas mãos. Reconheci o papel de cartas azul e a letra redonda. Li. E, daquele lugar onde fora escrita a carta, existia um eu que hoje quase desconheço, mas que sei, pulsa em algum canto de mim. Li, com firmeza de quem precisa completar uma lição. Porque a carta era assim um conselho e uma lição. Confrontei duas faces de mim mesma ao tocar aquele papel ainda intacto apesar do tempo. Digredi. Voltei. Entrei dentro do campo minado da simplicidade. Sim, a simplicidade mora em um campo minado, talvez por isso a gente teime tanto em querer o mais difícil ou o mais sofisticado que é areia no deserto. Plantei uma carta, quando já o fiz com muitas árvores. E havia ali, naquela escrita sincera, a alma de uma mulher em plena paz. Recostei-me sobre o espaldar da cadeira e me rendi a mim mesma. Do lugar que estou agora, vejo que aquela é a "verdadeira eu".

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Desafios


Quando se dá um trabalho por encerrado, logo nossa mente se retesa. Não há como fugir de novas ideias e afazeres. Dar um tempo para tudo, ficar longe de casa, é também parte dessa ideia de trabalho findo, mas não finito. Os olhos brilham e querem mais. À noite os sonhos dizem do inconsciente desejo de renovação. Então, de repente, nada mais é aquilo que costumava ser e a gente se desenovela junto com o fio de Ariadne. Esse espaço que buscamos dentro e fora de nós é o que há de mais precioso. Na riqueza dos dias, tantas vezes nebulares, podemos encontrar um fato, uma pessoa, um lugar. E neles ou deles, talvez nasçam novas histórias a serem contadas. Sempre haverá um livro por escrever. Isso, finalmente, entendo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


Uns dias para passear. Uns dias para não pensar, se isso for possível. Só queria o cheiro das primaveras lá fora. Vou ver se encontro e também me encontro nesse passeio que inicia hoje.
Eu volto em breve!!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Jogo do Imaginário em Caio F.













Renato Henrichs, meu editor
















Com o reitor da UCS, Izidoro Zorzi


Sempre penso no tempo de plantar e no tempo de colher. Agora é tempo de colher: alegrias e realização. Ontem o lançamento do livro Jogo do Imaginário em Caio F. foi um sucesso! Aguardem fotos!!



"Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva." Caio Fernando Abreu

domingo, 4 de outubro de 2009

Caio Fernando Abreu, Caio F.

Um livro nos liberta e consome. Quando falo isso me reporto às inúmeras vezes em que fiz revisões a pedido da editora. São manhãs, tardes, vespertinos. Qualquer hora é disponível para um acerto aqui outro ali. Mas liberta na hora da escritura. Quando deixamos o mundo de lado e só escolhemos as palavras que melhor digam aquilo que ousamos entender do outro. Nesse caso, o outro é alguém muito famoso e complexo: Caio Fernando Abreu, cuja intimidade com a pesquisa me revelou sua assinatura em cartas, Caio F. Passei logo a tratá-lo assim, como alguém que estivesse tão próximo que seria incômodo não lhe ser também próxima. Nunca sonhei com Caio e isso me parece estranho, uma vez que minha convivência com sua obra não vem só desses dois anos de pesquisa. Conheci Caio pessoalmente, em Santa Maria, minha cidade natal. Eu tinha então 19 anos. A menina cresceu lendo a obra do lendário escritor que dizia ter um "defeito de fabricação". Ele se referia ao estar no mundo, ao deparar-se com a vida tão crua e não saber o que fazer dela. A menina sentia-se assim também. E, embora tenha crescido, continou sua busca pelo tom exato da existência até descobrir que este inexiste. Fazemos o que fazemos porque amamos e sobrevivemos. Criou-se um laço entre a leitora e o escritor que apenas sorriu para ela e autografou os livros à época. Um laço, uma sintonia que as palavras de seus textos conseguiam enredar. Esse livro que agora lanço sobre a tessitura imagética de Caio F. é como uma homenagem. Mais, é como um tributo. Mais, é como amor sendo doado sem reservas.

sábado, 3 de outubro de 2009

Trecho de Jogo do Imaginário em Caio F.



Sargento Garcia é um conto em estilo clássico, no qual diálogos e descrições enriquecem a narrativa. “Nenhum vento nas copas imóveis. E moscas amolecidas pelo calor, tão tontas que se chocavam no ar, entre cheiro de bosta quente de cavalo e corpos sujos de machos. De repente, mais nu que os outros, eu: no centro da sala. O suor escorria pelos sovacos”. O Eu-Protagonista narrará sua saga em um texto que reúne crueza e melancolia, vibração e morticidade. É o único conto de Morangos em que a linguagem jornalística é sugerida nas frases curtas e descrições breves. “Sorriu. Pressenti o ataque. Sempre vencia.” O modo hemingwayano é mesclado com períodos longos, falas dos personagens e os pensamentos-signo de Hermes, o Eu-protagonista.


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Precisava de um tempo e dava. Recusava-se ao consumo fácil, à luz indireta, ao refreamento. Percorria-se, por horas. Texturas interiores. Não sabia o quanto. Alimentava o como. Perseguia os porquês. Aliviava-se no onde e no quando. Invadia terrenos imensuráveis com sua mente secretíssima. Precisava de tempo e amava. Idolatrava. Nunca se salvou.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O dia

Que o dia seja o que for. Com a chuva batendo nas vidraças. Que esse dia me dê um punhado de luz vinda não sei bem de onde, talvez da boa vontade humana. Que esse dia venha para reparar aqueles em que minha tristeza se revezou com a melancolia e cantei baixinho enquanto chorava. Que essas lágrimas escorram para dentro da terra em mim absorvida. Que eu consiga olhar nos teus olhos e dizer sim.

sábado, 26 de setembro de 2009

Indisponho-me com o tempo, com os rumos das coisas, com as pessoas no meu entorno. É uma indisposição muda, neutra, estranha. Não consigo prestar atenção no que é mais óbvio porque o diferente me atrai e fico querendo andar por outras bandas. Hoje, queria um abraço sincero, e recebi. Queria palavras de apoio. Recebi. Mesmo assim, há um vazio que se intromete introspectivo dentro daquilo que pretendo ser eu. Estou distante e imprecisa, querendo colo, querendo a benção de Deus na minha vida.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Mais primavera

Ela veio torrencialmente, mas a gente perdoa. O importante é essa mudança de estação.
É como um click, uma novidade, um raio de luz entrando pelas frestas.
A primavera se distende e estende suas flores por aí afora. Enquanto isso, nos rodeamos de qualidades de sentimentos. Tudo fica mais dócil, menos amargo, menos tenso. Muito embora os dias digam não. Tenho um pressentimento que a primavera é Deus abençoando a vida.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Primavera - Cecília Meirelles


"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega."

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Tão bom te ver que meus olhos até se irrigaram
de ti, tamanha a tua grandiosidade em mim.

Inquietações

O que eu ia dizer, esqueci. Os sentimentos, no entanto, permanecem. Você sabe. Alegria e um certo despudor. Não sei se o que preciso dizer é mesmo assim necessário. Somente sei que hoje as palavras estão falhas e brotam de um jeito diferente do habitual. Olho para o céu de chuva intermitente e desejo que as coisas todas se acalmem ao meu redor. Porque há turbulência. Porque há disparates. Dúvidas incabíveis. Sonhos destroçados. Minha alegria se turva diante dessas coisas. Coisas de um mundo rodopiante, inquieto e ao mesmo tempo vazio.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

FALA

(João Ricardo-Luli)

EU NÃO SEI DIZER
NADA POR DIZER
ENTÃO EU ESCUTO


SE VOCÊ DISSER
TUDO QUE QUISER
ENTÃO EU ESCUTO


FALA


SE EU NÃO ENTENDER
NÃO VOU RESPONDER
ENTÃO EU ESCUTO


EU SÓ VOU FALAR
NA HORA DE FALAR
ENTÃO EU ESCUTO


FALA

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sol, please!

Querendo sol a gente vai remando por entre as águas. Hoje é um dia como outro qualquer mas em que tudo parece difícil e tedioso. Estou repetindo o post abaixo? Talvez! É que o encasulamento está me deixando louca. Preciso de sol, preciso de luz natural. Sair a rua, caminhar longamente. Contudo, uma notícia legal: já estou revisando o meu livro sobre o Caio F. É tão bonito ver um livro nascer!!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Parece melancolia. E deve ser mesmo. O tempo por aqui anda nebuloso demais. Esse falso fog londrino me deixa cabisbaixa. O mundo parece uma rede por tecer e eu não firmo o pé no chão.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

De volta pra casa!!




Luz acesa
Me espera no portão
Pra você ver
Que eu tô voltando pra casa
Me vê!
Que eu tô voltando pra casa
Outra vez...
Lulu Santos

Voltar é um sopro. É a vida em que se mergulha. É buscar os acontecimentos de um passado recentíssimo e se comprazer com ele. Voltar para casa dá uma sensação de alívio. O desconforto de dias em hotel e tropeços da viagem acabam ficando para trás. Agora é seguir em frente porque quando se fica em um congresso é como se o mundo parasse de girar e a gente estivesse frente a frente com todas as verdades. Mentira, o eixo enferrujado da terra continua rodando e nós apenas envelhecemos alguns dias. Voltar, como eu dizia, é benção. A casa, os gatos, o marido, o travesseiro cheiroso... Voltar é renovação.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Espelho

Viajar é preciso, em todos os sentidos. Amanhã vou para Curitiba com alguns colegas e alunos para apreciar (se este é o termo) o Intercom Nacional. Estarei de volta no dia 8 de setembro. Portanto, até lá um grande abraço a todos. Deixo um poema meu para vocês:

O espelho me reflete
e um louco labirinto
no atrás da imagem:
teus olhos me olham
pequenos
e percebo que são meus
os teus olhos grandes
Tua mão me conhece
e há minha mão a
te desconhecer por completo
no peito estrangulado do silêncio
E um coração olhando esquisito
e é o teu silêncio esquisito
e teu coração estrangulado
que me espreitam
o tempo inteiro
Pelas costas da imagem
no espelho
eu te permito me ser
mas eu é que te sou
Pois de mim nada
consegues ser além de ti.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Tudo em você

Quem repara bem na paixão
Não separa um sim de um não
Um não de um talvez
Terá sua vez
A primeira condição
De um amor viver de ilusão
Querer ser feliz
Sugar na raiz
Tudo em você

Beto Guedes

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Pesadelo

Ás vezes eu não sei o que me passa. Se é o clima. Se é da vida esse ressoar constante. Se é a vontade de. Se é apenas a falta ou o excesso. Olho para os lados, para cima, para baixo. Os olhos cegam de tanto ver e quanto mais cegos mais veem. Eu lhes digo, às vezes não sei o que me passa, se é tristeza ou alegria. Ou só um momento de reflexão. Essa noite sonhei que um demônio me puxava pelos pés. Eu gritava mas minha voz não saia. Acordei apavorada, coração boca afora. Um demônio!! Tentei rezar mas não consegui. Não sei o que me passa mas acordei numa atmosfera de terror porque o sonho foi de certo modo muito convincente, quase-real. Por isso, não sei o que me passa. Se abro um livro da Virgínia Woolf. Se ouço um pouco de Bach. Se escrevo um poema. Se esqueço que estou aqui só por um pouquinho. Podia desaparecer feito o Belchior, mas sem ser encontrada! Risos!

domingo, 30 de agosto de 2009

O mundo é um moinho

Bateu saudade de Cartola e de seu samba tão verdadeiro.


Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atençao querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés

sábado, 29 de agosto de 2009

Aqueles cavalos brancos

De Germano Viana Xavier

Eram tantos os cavalos brancos
que passavam,
trotando,
pelos silêncios de minha rua.
E como eram alvos,
essencialmente puros.

E eu, solitário cavaleiro,
a descansar meus ouvidos
naquele pleno distanciar de pernas...

Eu saltitando de alegria,
eu sufocando minha agonia,
eu crescendo,
eu perdendo meus segredos,
eu sem saber de nada
nem do mundo,

eu me desconhecendo...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Caminho das Índias...


Tem um esquizofrênico. Uma psicopata. O psiquiatra. Gente mafiosa, pelo que deu para perceber. E tem o elenco da India. Quase tive uma parada cardíaca porque nunca assisto. O ritmo é quase de videoclipe agora, não como no tempo de "Roque Santeiro". É tudo fracionado, misturado, triturado. Foi uma experiência muito ruim essa de tentar assistir um capítulo de "Caminho das Índias". Não sei qual o ibope da novela, nem me interessa. O fato é que é pura indústria cultural, cheia de estereótipos e clichês, claro. É o que o brasileiro assiste. É disso que falam nas paradas de ônibus, nas praças, nos condomínios. Usam as expressões que não sei aqui repetir porque na verdade só assisti a meio capítulo. Não suportei. E não estou falando isso para malhar. Quem gosta que tire proveito, mas que meu tempo é mais bem utilizado isso é. Troquei de canal e fui assistir House. É enlatado mas pelo menos tem humor negro e curiosidades sobre medicina.

Meus alunos

Eu aposto neles como quem está no deserto desejando água. Eu aposto neles porque mais do que acreditar eu preciso entender. Mecanismos, ações, reações. Tudo requer tempo e muita calma. Um olhar prestativo, uma certa virtude de olhar. Para sempre ver como se fosse a primeira vez, a primeiridade que tanto procuro. Para tê-los não à minha frente dispostos em carteiras umas atrás das outras, em fileiras. Eu aposto neles porque sou tímida e justa ao mesmo tempo e consigo me fazer entender quando menos espero. Eu acredito neles por serem jovens e terem energia, capacidade, empenho. E muito, por terem feito uma escolha.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Tenho tido dias fantásticos nas minhas aulas, tão diferenciadas. Assuntos variados, temas relevantes e alunos interessadíssimos. Essa é a primeira impressão que tenho do semestre. Creio que as coisas tendem a melhorar ainda mais e isso me deixa muito curiosa e em expectativa para com os próximos encontros. Espero que os acadêmicos também estejam gostando da nova experiência.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Incertezas

Vivemos um tempo de "vazio ético", de incertezas constantes. Nada do que você faz ou diz tem aquele mote de "isso vai ficar pra sempre". O pra sempre é um instante vago e impreciso. Ando em uma crise danada quanto a isso. Parece que a gente vive sem expectativas ou que elas são tão incertas que dá vontade de sair correndo. "Pare o mundo que eu quero descer!" É mais ou menos isso. Hoje estou acabrunhada, cheia de dúvidas e começando a achar tudo sem graça como aquele menino do conto do Caio F.: Como é que ninguém desconfiava que o Clark Kent era o Super-Homem? É por aí...

sábado, 22 de agosto de 2009

Sobre generosidade

Generosidade. Essa palavra parece estar desaparecendo de nossas vidas. Tenho sentido falta de generosidade nas pessoas mais próximas, nos colegas, nos vizinhos. Ser generoso é dar-se um pouco além da conta, talvez. Alguns não conseguem conceber isso: compartilhar. Mas o nosso mundo, já tão desgastado, precisa urgente de pessoas generosas, amáveis, solícitas. Passa o tempo e meu coração se aborrece com as mesquinharias diárias. Pequenas ou não, estão se tornando para mim pouco suportáveis. Logo, me afasto do gênero humano quando queria estar no centro de sua alma mais ardorosa. Não sei fingir que está tudo bem quando alguém vê que estou chegando perto do elevador e o deixa ir embora. Não posso dizer que está tudo bem quando a pessoa simplesmente fecha o portão do prédio sendo que estou a dois degraus de passar por ele... São dois exemplos pequenos eu sei. Mas se alguém não é generoso de esperar você entrar, vai ser generoso em outras situações? Duvido muito.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Amanda

Era um instante selvagem, aquele de morder o pão. Havia voracidade e desejo de doce de leite. Amanda abriu a boca pequena e mastigou mais um pedaço. Era como comer a vida mesmo a seco. Era como brindar a existência com água da torneira. E ela bebia imaginariamente. Meio engasgada, agradeceu ao homem na porta da casa e quis pedir um pouco de geléia, quem sabe. Mas o que ele ofereceu, cara amarrada, foi aquele pão de ontem. Pão amanhecido tinha gosto de vida já vivida, como a dela. Era criança só no tamanho. Agradeceu novamente e se pôs a andar pela calçada sem buracos. Contava coisas pelo chão. Tinha vontade de brincar, rir, porém apenas suspirou. Olhou a manhã fria e se encarapitou um pouco. Aquele pão seria talvez sua única refeição do dia. Pensou nos irmãos. Por onde andariam? Ela estava só. Eles a abandonaram na rodoviária, não sabia dizer o tempo exato. Talvez dias, meses. Ainda não fazia um ano. Contou pedrinhas que colocou no bolso surrado de seu casaquinho e foi descansar um pouco no banco da praça vazia àquela hora da manhã.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Andrei Tarkoviskj (Solaris)

Perguntar revela um desejo de saber, para preservar verdades precisamos de mistérios. O mistério da felicidade, da morte, do amor.

domingo, 16 de agosto de 2009

O cotidiano

Meus leitores e leitoras, as férias se foram. Rápido. Como uma ventania. Nem pude fazer as coisas que queria de verdade. São sempre as mais difíceis. Mas tive um encontro diário com vocês. De carinho, afetuosidade mútua. Somos quase 50. Somos muitos! Eu sempre os espero por aqui. Sei dos furtivos e calados. E gosto dos falantes e bem humorados. Assim como respeito os mais sisudos. Gosto de gente. E hoje pensei nessa diversidade toda. Vocês são de todos os lugares do Brasil!! É emocionante ter amigos assim, de tantas paragens, com tantas vivências diferenciadas. Com o final das férias talvez eu não consiga escrever todo dia. Mas não importa. Sei que estarão comigo mesmo em pensamento. E, quando vierem aqui, que seja um local aprazível e bacana. Eu os recebo com meu carinho que é muito muito grande. Comecemos bem a semana!! Carpe Diem!!

sábado, 15 de agosto de 2009

Inundei o quarto. Era previsível. Por vezes deixamos de lado alguns sentimentos mais profundos e doídos e quando vemos, eles estão à espreita. Mas hoje é sábado. O quarto inundado vai secando. Tem sol. Vontade de que os olhos vejam outras coisas para além dos temores e dúvidas. Os olhos, sempre eles. Tão atentos e meticulosos em sua procura por algo mais. Que minha prece seja ouvida. Que meus olhares se desviem do inarticulado e do perigo das trevas. Como sou super do Bem, acho que o dia vai passar bem bonito e afetuoso. Que vocês me acompanhem!!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Coisas

Não sei o que sonhei. Não lembro que dia é hoje. Não faço a menor ideia das coisas. Coisas coisas coisas. Estou aprendendo a ver. O dia. As horas. O mundo. Geralmente não gosto do que vejo, assim, a um primeiro olhar. Mas tudo tem sua segunda chance. Não lembro quando eles se foram. E, para eles, não há volta. Sei que me sinto vagamente conformada, vagamente. Não sei porque os dias correm tão depressa. Sinto um nó na garganta mas o choro não vem. Às vezes é melhor que não. Porque tenho medo de um dia voltar a ser Alice e inundar uma sala de lágrimas. Lembram da Alice? Lewis Carol. Alguma coisa eu sei. Alguma coisa esqueci. Alguma coisa vem. Estou esperando na vaguidão do momento. Que seja você que me abraça forte e comprime meus músculos. Que seja você, sempre ao meu lado dizendo coisas engraçadas para eu rir da vida um pouco. Que seja você, de agora e sempre.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Prece II

Eu me salvei de mim. Fui do precipício ao cume da montanha. E doeu.Tanto e tão afirmativamente que eu só sabia conjugar o verbo doer e sempre no presente. Porque era um eterno agora. Sem amanhã, eu não via as luzes que se acendiam, nem as passagens que se abriam discretas. Eu já fui feita de dor. Eu já fui feita de mais eus do que podia carregar comigo. Por isso invadi o terreno da insuficiência, da loucura, do não ser. O esquisito é que teve alguém no meio disso que me empurrou: agora vai, ele disse. E eu acreditei. Por também ser feita de afeto, eu acreditei nele. E, nas noites de insônia, assistindo Camille Claudel, ele era desespero por mim. E eu lembrava Caio F e Clarice Lispector e Clarissa, a Dalloway. Estremecia no silêncio de minha respiração paralisada. Sofria. E ele empurrava, com delicadeza: agora vai. Sei que fui me transformando no que sou agora e tem algo de doce-amargo nessa vivência. Algo de inacreditável. Eu sei que peço demais e que Deus sabe o que é prioridade, por isso é Deus. O milagre da alegria é o mais indescritível depois da tristeza. Ah, esse sabor nos lábios. O beijo recente e as mãos firmes me largando no mundo: agora vai. Deus, não deixa isso acabar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Você

Quando você me conheceu naqueles idos anos 80, eu usava gola rulê, como na foto do blog. Era um tempo de muita esperança e solidão. Esperança num amor que fosse eterno. Solidão pelos dias passados a sós, com meus livros e discos. É, naquele tempo era o vinil. Lembro de você como se fosse agora. Só que agora você está longe, em outras paragens. Mas é modo de dizer. Lembro do seu cabelo e do olhar, tão intenso, tão para dentro que se expunha sem querer. E era esse não querer querendo que me fascinava. Lembro que tomamos vodca e isso não era coisa para uma garota fazer, mesmo no século XX. Pois estávamos entravados naquele século. Rimos à toa antes do álcool por uma razão que nenhum de nós chegou a descobrir. Rimos depois do álcool, embalados por uma canção que cantamos desafinados. Mas rimos, acima de tudo, porque era a vida que chegava para nós dois. Não seria eterna como pensei, mas foi uma vida e tanto.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Fuga


Só sei até aqui, pois o “de agora em diante” é um mistério para mim. Talvez também para você. Nossos destinos daqui para frente se desconhecem. Quando o “de agora em diante” tornar-se somente “agora-já”, tudo ficará para trás, nebuloso em nossas memórias. A mente sempre re-arranja as lembranças, não é? Um pouco mais de cor aqui, menos luz lá. E, se julgamos que a essência se conserva, é porque somos muito pretensiosos. Além do mais, as lembranças ficam escondidas, é preciso retirá-las uma a uma, cuidadosamente. Isso requer esforço, determinação. Como o que faço agora, escrevendo enquanto o voo não sai.

Você não percebe, mas no fundo estou tentando esquecer você. Esse é o ato de maior coragem para mim. Sinto-me tão antiga e sábia e louca que poderia simplesmente ser. Vi você comprando um livro que foi embrulhado para presente. William Blake. Horas depois fomos ao correio, você o enviou para alguém que desconheço. Claro, pois se nos conhecemos antes de ontem. É preciso contar três dias.

Foi assim: eu passava na frente daquela galeria e resolvi entrar. Aprecio arte embora às vezes não entenda a proposta de algumas obras. Faço a minha leitura, mesmo de um modo tosco. Sou muito esforçada, você disse. Depois de alguns instantes, fiquei tonta do seu olhar. Aceitei o vinho branco que me deram a beber e me dispersei pela instalação. Alguma coisa se anunciava.

Esquivando-me, querendo ser sombra de mim mesma, senti o seu olhar fazendo curvas e se agachando, espichando até me encontrar. Você é feito de olhar. O jogo começava, porque esse é um jogo da nossa espécie. Se você fosse pavão abriria seu leque de penas. Eu pensava coisas assim, distraída e ao mesmo tempo querendo compreender aqueles traços rascantes. Telas doídas até a raiz. E havia vídeos por todo o salão e labirintos verticais e horizontais, se quiséssemos poderíamos entrar neles, estreitos e escuros. Senti piedade por todos nós e quis chorar um pouco um choro seco para que ninguém visse. Sem esgares, lágrimas, lenços. Tudo é labiríntico caos, entende? Isso eu queria lhe dizer.

Sim, você entendia. Lembro de como você se aproximou e disse no meu ouvido que eu havia sido escolhida para a liberdade. E sua voz era suave. Você cheirava à colônia, entre doce e picante. Fiquei quieta um tempo, depois me virei delicadamente e vi de perto esses olhos capazes de fazer um estrago na vida da gente. A partir dali eu disse sim sim sim. Sem pensar no amanhã, vivendo só o “agora-para-sempre”.

Foi fácil: nós acreditamos nas nossas mentiras, inventadas com tamanha criatividade que pareciam nutrir toda carência, todo o vazio. Disso, não sabíamos, haveria mais vazio e mais. O jogo era assim: você pintor, eu modelo. Você cantor, eu bailarina. Você bandido, eu... De detalhes ninguém precisava. Pois havia aquele fogo, aquele desvario. Como quando li Marguerite Duras, sensual e apaixonada. Eu quis ser um pouco aquela mulher de O Homem Sentado no Corredor. Você leu Duras? Você já sentiu esse fogo que queima tão dentro e tão fundo que a pele se toma de uma absurda quentura quase insuportável?

Um dia eu senti isso. Naquele tempo eu não tinha certeza da dor ou da solidão, essa certeza que hoje está em mim como uma marca. Olho no espelho e vejo. Está lá, quase como uma cicatriz. Mas eu invento que sou como a personagem do livro, explosão de libido. É porque preciso me salvar, entende? Do ruído lá de fora, da fuligem, dos becos imundos. Dos sentidos que rebentam em dor e que nos dilaceram. Então, se interpreto outras de mim vivo mudando de personagem. Você vê? É uma coisa dentro da outra.

Os três dias se foram. Eu tinha certeza que havia um relógio de areia em algum lugar. Seu olhar fugiu do meu. Nem relutamos. Você pegou suas coisas, eu as minhas. Parecia artístico deixar alguém tão dignamente. Assim foi. Apenas vasculhamos nossos corpos de um modo quase desesperado. À procura de quê? O que precisava ser saciado que desconheço? Fingir pode parecer tão verdadeiro e isso me confunde.

O voo vai sair. Atrasos, sorrisos postiços de aeromoças que parecem sempre entediadas. Eu espero apenas pelo vinho tinto servido em copinhos de plástico transparentes. Olho as comissárias de bordo, será que alguma faria o que fiz? Foi porque senti aquela quentura novamente, como os personagens de Duras? Sem telefone, internet, camareiras, campainhas. Isso você pode entender, eu sei. Parei de escrever a alguns minutos, guardei o caderninho azul na bagagem de mão.

Agora eu delineio tudo em pensamento. Que lástima. Há algo que você não vai compreender. Não, não é compulsão ou coisa desse tipo. Eu apenas tomo o que julgo ser meu. Três dias devotados a você, que simplesmente iria embora sem deixar sequer um número de telefone? Então eu penso em mim, enquanto há tempo. Um tempo dentro, e não fora. Pensei muito sobre o que transcorreu. No hotel, na rua, no café... E sei que estou com a razão. Gostaria de ver sua cara de espanto ao abrir aquele pacote quando já estiver em casa.

Fui astuciosa. Não mexi na carteira. Revirei suas coisas no último minuto, quando você desceu para pagar a conta. E deixei tudo como estava, tenho essa habilidade. Vi você guardando as pedras na noite anterior. Contou mais de uma vez. Senti algo ilícito no ar. Não perguntei nada. Apenas agi no momento certo. Sim, sim. Faço isso há tanto tempo que se tornou parte de mim. Se você não tivesse algo valioso eu levaria qualquer outra coisa, entende? É da minha natureza. Eu disse que me chamava Marnie[1], não disse?

Finalmente o vinho tinto. Elas nunca enchem o copinho de plástico. Olho pela janelinha, nuvens. Estou nas nuvens, sim. Quando chegar em casa, tomarei um longo banho de banheira. Meu corpo íntegro novamente. Minha mente leve, sem culpas. Quem disse que você poderia confiar em mim?



[1] Referência à personagem de Alfred Hitchcock do filme Marnie, Confissões de uma Ladra

Verso-sopro

Trago em mim um único verso que não decorei ainda. Há muitas décadas ele me persegue mas eu não consigo capturá-lo. Esse verso danado me escapa sempre, como um sopro. Talvez deva ser assim mesmo, um sopro divino. A gente só sente e suspira baixinho para não atrapalhar o farfalhar das asas do anjo que é tão gostoso de ouvir. Eu passaria a vida ouvindo os anjos em suas cantigas e vendo suas asas se agigantarem para um voo maior. Eu queria ver os anjos assim como sinto o sopro do verso em meus ouvidos. Mas acho que devagarinho vou sentindo, sem entraves. Porque é preciso estar extraviado de si mesmo para entender as coisas divinas.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Caravela

A casa era branca e os quartos também. Às paredes seguravam-se uns quadros. Pintura dela. Ele nunca. Mas a mulher gostava de arriscar em cores seus pincéis baratos. E, ouvindo Gismonti, os dois estendiam os braços à procura.

Um dia ela ligou a televisão ao acaso. Viu Luciano Alabarse. Ele disse: "Essa procura, coisa de geminiano mesmo". Sou aquário, disseram. O ascendente dele era Libra. O dela iam averiguar.

Eles sabiam que sim e que não.

Quando ouviam Caravela, então, eles sabiam tudo. De todas as coisas. Daí sentirem-se pobres e humanos.

Ela aproveitou o último tubo de verde e apertou-o com as mãos pequenas e magras. Os dedos espalharam a cor na parede do quarto de hóspedes. Gostavam de chamar assim aquela sala onde era também escritório e ateliê e um espaço aberto dentro da casa. Uma espécie de natureza roeu o concreto. Um musgo. Um grito. Um aviso. Riram. Não era de chorar, por enquanto.

Faziam um esforço grande. Esforço de gigantes. Para acreditar, aceder, intuir. Alguma coisa batendo forte e dentro que era o mesmo que ouvir Caravela e saber. Vinha a certeza obstinada. Seus olhos enredados em não ver além. E isso é que era perigoso. Disso não suspeitavam. Nem ouvindo Egberto. Nem bebendo brandy. Nem se lambendo. E beijando. Nem quando eram bonitos um ao outro. E ele penteava seus cabelos com os dedos. E ela alisava os dele. Nem lendo Pessoa. Nem assim.

Quando a música acabava eles ouviam o silêncio respirando. Medo? Para quê? Eles só compreendiam melhor que nada pode ser compreendido melhor. E ninguém morria. Tocavam suas bocas cheias de perguntas e vinha o beijo abafando as respostas que ainda não. Um dia, sem dúvida.

Para depois, abrir os livros e reconhecer. Para depois deitarem um sobre o outro. Para depois o depois. Bastava-lhes o amor que, esse sim, não entendiam direito de onde ou porquê. Era mistério e luz. Aquele brilho. Caravela.

Ondas batendo. Rochas.
Tudo sereno, no fundo intocado.

domingo, 9 de agosto de 2009

Domingo


E no final, lembrou. Tinha muita sorte de viver assim, sem preocupações. Eles vinham todos os domingos e lhe traziam maçãs. Era um ritual: maçãs e flores do campo. Ela era feliz pois gostava da casa sempre alvejada. Dos trilhos pelos corredores. Das janelas trancadas. Dos choques elétricos. Foi aí que quis falar dos choques. Mas eles já estavam no carro dando adeus com aquelas mãos um pouco tolas. Então eles sabiam? Das portas e seus mistérios. Dos gritos que vinham do quarto ao lado. Das injeções quando se alegrava e corria pelas salas dando cambalhotas. Do soro que durava horas e a enfermeira com cara de agente penitenciário. Eles sabiam que ela estava ali? Olhou em volta e deixou cair as maçãs do lindo cesto adornado. As flores jogou no piso gelado. E pisou em cima delas tantas vezes que nem percebeu as quatro mãos lhe arrastando para dentro. Na sua cela solitária ela viu uma pequena borboleta. Ficou olhando enquanto os medicamentos não faziam efeito. No final, ela lembrou, também ela era um borboleta no casulo.

sábado, 8 de agosto de 2009

Obrigava-se, então. Era preciso tentar. Não que quisesse. Tudo parecia turvo. Estava exasperada pela demora. Ele se empenhava tanto mas ela não correspondia. Havia um entrave, uma lacuna. Deu-se por inteiro naquilo que de pouco lhe restava: dignidade. Achou melhor desistirem no meio da jornada. Para seu espanto ele suspirou aliviado. Então, para ele também era um martírio? Pensou martírio e aí percebeu o quanto aquilo tinha ido longe demais. Não era assim que se amava. Não, de jeito nenhum. Que ele fosse embora de vez e a deixasse com suas ilusões passageiras, que logo a abandonavam como ele ia fazer. Talvez não hoje. Mas ia. Começava a sentir aquela opressão no peito e o jeito de olhar as coisas havia se transformado em raio laser. Tudo perdurava porque eram pouco talentosos com as despedidas. Cada um do seu lado da cama e pronto, o sono veio em seguida apesar dos pensamentos tortuosos dela.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Vulcão. Lava. Quentura que mata. Viviam no limiar desse calor. Viviam das rimas quentes de suas pernas entrelaçadas. Um balé sem coreografia definida. Viviam de pensar que eles eram assim, lavas que escorrem pelas valas de uma cidade já abandonada pelo medo. Por isso, se entregavam ao que lhes era dado ousar. Por isso se gemiam era como caminhar pela lava quente uivando. De seus traços guardariam o melhor de tudo, os rostos sabidamente abertos ao prazer. À deriva, seguiam. Mãos sonolentas se aninhando um ao outro. E o dia vingava, com fuligem do vulcão. Mas eles pouco se importavam.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O canto

Tricotava. Tricotava sem fim. Um dia ouviu vozes angelicais que vinham do outro quarto. Ouviu com devoção. Com encanto de quem já viveu tudo. Anjos numa rua barulhenta de São Paulo. E ela os ouvia? Coisa de Deus, pensou, voltando a contar os pontos na agulha. A filha, no outro quarto não ouvia nada além das buzinas e gritos entorpecendo o entardecer da cidade grande. Um dia a que tricotava iria contar-lhe o acontecido. Quando fosse a hora. Tudo tinha sua hora. Acabara de errar um ponto. Era preciso refazer. Mas sempre é preciso refazer tantas coisas. A vida, afinal era como seu tricotar incansável. Vez ou outra errava-se um ponto.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Paris será uma festa

Simplesmente assim. Uso Chanel Nº5, mas só de vez em quando. Senão, fico com Angel de Thierry Mugler. Sim, são perfumes caros, mas eu os adoro e faço durar. Por que falar de perfumes em uma segunda-feira? É que tento lembrar do meu perfume em São Paulo, sei que era da L'Áqua DiFiori, mas o nome esqueci. Assim como esqueci o perfume da minha avó que também era da L'Aqua. Sinto saudade dela, no início até sentia seu perfume, sabe. Era como uma presença. Hoje ainda a tenho comigo. Por vezes acordo e penso que ela está na cozinha - seu lugar predileto - fazendo quitutes gostosos. Aqueles pães ou pavês. É a melhor coisa quando acordo e tenho essa sensação. Aprendi a ter memórias boas depois de um turbilhão de tristeza. Foi nessa época que fui para Paris. Quando a perdi, em 1995. Eu fiquei muito abalada, o médico dela me receitou Prozac e uma longa viagem. Tirei férias do jornal. O Luiz também. Pegamos mochila, o pouco dinheiro que tínhamos guardado mas que dava pra se virar, compramos dólares, travellers cheques e fomos. Primeiro Bruxelas, depois Londres, Amsterdã na volta, Berlim... Paris. Trajetos na memória, nas fotos, no coração. No ano seguinte ou no posterior, voltamos. Novamente Londres, Paris, mas desta vez mais da Alemanha e inclusive Dinamarca. Inesquecível. Lembro da inveja torpe dos colegas do jornal e de minha forma de ignorá-los, obtusos, tacanhos. Nunca mais falamos das viagens para os outros. Apenas entre nós. Como um segredo secretíssimo. Também conheci a Suíça. As viagens ficaram de lado com outros gastos que surgiram. Mas, um dia, sim, Paris novamente e será uma festa.

domingo, 2 de agosto de 2009

Herbert Vianna

E são tantas marcas

Que já fazem parte

Do que sou agora

Mas ainda sei me virar


sábado, 1 de agosto de 2009

O sábado dela

Só o tempo pode dizer. Mas o tempo fala? E como! Seu texto é às vezes incompreensível. Pensava essas coisas quando lembrou que era sábado e que o dia estava livre para fazer o que quisesse, embora não quisesse tantas coisas assim, então, de pronto, escreveu um poema. Sem rimas, sem métrica. Mas parecia com um poema. Gostou e ficou lendo as palavras escritas com a caneta bic. Coisa que queria era um dia ter uma caneta daquelas, sabe? Finas. Olhou em volta e viu o cachorro dormindo. A manhã estava quieta demais, depois do poema. Talvez, se ligasse para algum amigo. Que amigos tinha? Colegas, no máximo. Era assim muito sozinha. Mas morava em uma cobertura. Tinha lareira. Escadas. Lustres caros. Um colchão de R$ 10 mil. O que mais podia fazer com tanto dinheiro? Tudo o que comprava, no entanto, não aplacava sua feiura interior. Era mesmo horrenda, pensou, ao lembrar as coisas que ele dissera antes de partir. Levantou-se e olhou seu corpo no enorme espelho da sala. Sabia que ele tinha razão: ela estava flácida. Mas, não ia malhar todo dia como ele recomendou pretensioso. Se a quisesse teria que ser assim, flácida. Nem bem lembrou as palavras dele e nasceu outro poema torto. Hoje o dia estava inspirado. Ia fazer as unhas, o cabelo. Pegar seu carro e sair por aí. O sábado estava resolvido. Talvez encontrasse algum caroneiro na estrada. Quem sabe.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Juro que estava ali. Eu até cliquei para conhecê-la. Pois bem, ela sumiu. E eu fico desencontrada quando coisas e pessoas somem assim da minha vida. Eu nem cheguei a lhe enviar uma mensagem. Foi tudo tão rápido, entende? Fico me perguntando se ela vai voltar ou se achou essa coisa de seguidores meio fanática, sei lá. Quem era ela, afinal? Metade de um rosto bonito se mostrou por breves momentos. Fiquei com a sensação de "como assim?". Que é um jeito tonto de se ficar meio triste também.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Etérea

Que ouvisse mal ou talvez francamente não lhe desse a menor importância. Foi assim que ela descobriu que ele não a escutava dócil e solidário como ela imaginava. Um dia viu que ele estava com os fones de ouvido, olhos fechados, semblante descontraído. Teve uma dúvida irrefreável. Vontade de arrancar-lhe os fones e dizer tudo o que pensava dele. Porque, meu Deus, ela pensava coisas inenarráveis. Sentia-se no cabresto. Vontades inchadas sem vazão. Pura dor de solitude amarrada aos pés pequenos. Vivia no balanço de um barco e lembrou do conto que falava sobre âncoras nas paredes. Se estavam ali, não as via, mas era como se estivessem. Assim, recolhidas. E ela, tolhida, apegava-se às migalhas que ele ofertava quando na cama fazia dela uma mulher mais sólida. Menos etérea, ia ao banheiro olhar-se no espelho para ver se as vontades ainda estavam ali. Estavam. Mesmo com ele sendo bom no que fazia. Mesmo sucumbindo ao seu deleite. As vontades nunca a abandonavam, inchadas, sem vazão. Foi então que pensou que talvez fossem outros os desejos que não os da carne. Talvez isso de ela ser um tanto etérea como disse uma amiga, fosse o que ela realmente era. Naquele momento, vendo o quanto ele se deliciava em sua solidão sonora, ela resolveu que sim. Podia flutuar se quisesse. E, foi o que fez, muito delicadamente, sem que ele percebesse nada. Seus pequenos pés arredaram-se do assoalho desamarrados da dor e ela ficou assim, por alguns instantes. Disso, ele nunca soube.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Aposto na coragem de ser e existir. Uma e outra coisa se complementam. Quando você ouvir as batidas do meu coração saiba que é febre e alegria e encantamento pela vida. Apenas me abrace, então.

terça-feira, 28 de julho de 2009

A mulher do escritório

Faltava-lhe uma certa flexibilidade. Um jeito de andar menos tenso, menos reto, correto. Sobrava-lhe uma certa amargura que vinha até no sorriso mais expandido. Leira era uma mulher com vincos nos olhos que usava aqueles bastonetes para aplacar as marcas do tempo. Leira era triste e se vestia dessa forma. Não chamava atenção exceto pela rigidez. Um dia escreveu uma carta para ele. Disse tudo. Aquilo que uma mulher pode desejar de um homem, mas ele sequer leu. Ela viu de sua sala-aquário que ele deixou de lado o envelope lacrado. Uma lágrima livrou-a da dor. Era suficiente, uma única lágrima renegada. Não havia tempo para chorar. Cuidou apenas para que ele se afastasse da mesa abarrotada de papéis e foi até lá. Retomou a carta para si, entre aliviada e frustrada. Talvez se gravasse algo para ele ouvir no carro, a mesma carta ditada bem devagar. Não, não adiantava. Ele estava lá há meses e não a enxergava. Era como os outros. Teria destino igual. Leira tirou o fone do gancho e ligou para o RH. Deu as instruções e logo viu o resultado. Joel recolhia suas coisas da mesa balançando a cabeça como quem nada entende. Ela sorriu, dissimulada. Agora era esperar o próximo contador. Segundo suas recomendações, o novo deveria ser entrevistado por ela. Era uma nova estratégia.

sábado, 25 de julho de 2009

Luz de fogo diante do mundo

Estava pálida de insatisfação. Olhou as pessoas atravessando as ruas e teve vontade de seguir a turba. Eram sim, uma turba. Falavam alto e replicavam palavras, como se houvesse um eco no ar daquela esquina. Quase acreditou nisso, quando percebeu uma fala tão dentro de seu ouvido que teve um tremor. Olhou para o lado. Ninguém. Ficou parada, olhando coisa alguma, enquanto os ecos aumentavam:"o preço... salário... contingências da vida... vacina". Por um momento sentiu-se o anjo de Asas do Desejo. Pensou que ouvia não as vozes mas os pensamentos alheios. Sentiu certa emoção erradia. Logo percebeu o vento, o sol, as mantas de lã, os cachecóis, luvas, chapéus coloridos. Fazia frio e ela parada na esquina. Vez ou outra alguém esbarrava nela que piscava os olhos como em câmera lenta. Quando percebeu que além das vozes alheias também havia vozes de dentro, pensou na loucura. Deu um passo sem sentido. Não sabia para onde ir. De repente, esquecera quem era. Seu nome. Seu destino. Como quem tateia no escuro levou as mãos ao rosto e o apalpou de leve. Tinha olhos, nariz, boca. Era um ser humano. Mas o pensamento só foi até aí porque as vozes ficaram mais altas e exacerbadas. "Vigília... cuidado com eles... não se mostre". A palidez de insatisfação cedera lugar a um estado-pânico e os olhos antes dispersivos e lentos tornaram-se luz de fogo diante do mundo. Precisava esconder-se. Precisava fugir. Rápido! Quando atravessou a rua ainda ouviu um grito, que não entendeu se era de dentro ou de fora: "Cuidado!". Ouviu o ruído, mas não entendeu. Deitada na rua, não viu as pessoas que a circundaram dizendo coisas como: "Ela estava estranha... atravessou sem olhar... o motorista não teve culpa..."