domingo, 9 de agosto de 2009

Domingo


E no final, lembrou. Tinha muita sorte de viver assim, sem preocupações. Eles vinham todos os domingos e lhe traziam maçãs. Era um ritual: maçãs e flores do campo. Ela era feliz pois gostava da casa sempre alvejada. Dos trilhos pelos corredores. Das janelas trancadas. Dos choques elétricos. Foi aí que quis falar dos choques. Mas eles já estavam no carro dando adeus com aquelas mãos um pouco tolas. Então eles sabiam? Das portas e seus mistérios. Dos gritos que vinham do quarto ao lado. Das injeções quando se alegrava e corria pelas salas dando cambalhotas. Do soro que durava horas e a enfermeira com cara de agente penitenciário. Eles sabiam que ela estava ali? Olhou em volta e deixou cair as maçãs do lindo cesto adornado. As flores jogou no piso gelado. E pisou em cima delas tantas vezes que nem percebeu as quatro mãos lhe arrastando para dentro. Na sua cela solitária ela viu uma pequena borboleta. Ficou olhando enquanto os medicamentos não faziam efeito. No final, ela lembrou, também ela era um borboleta no casulo.

2 comentários:

Thomaz Ribeiro disse...

Poxa, que privilégio, fazer o primeiro comentário. Os textos curtos são sempre fascinantes, haja vista que num espaço exíguo se tem que passar uma carga que pode ser do tamanho de uma existência. O seu texto falaria tudo do tamanho que tem ou se fosse do tamanho da Bíblia. Você foi capaz de liricamente passar todo o drama. Parabéns.

Biba disse...

Thomaz, obrigada! Sempre fiz textos longos e no blog estou aprendendo a fazer curtos e com um olhar meio cinematográfico, às vezes.

Beijo
Carpe Diem!!