quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Amanda

Era um instante selvagem, aquele de morder o pão. Havia voracidade e desejo de doce de leite. Amanda abriu a boca pequena e mastigou mais um pedaço. Era como comer a vida mesmo a seco. Era como brindar a existência com água da torneira. E ela bebia imaginariamente. Meio engasgada, agradeceu ao homem na porta da casa e quis pedir um pouco de geléia, quem sabe. Mas o que ele ofereceu, cara amarrada, foi aquele pão de ontem. Pão amanhecido tinha gosto de vida já vivida, como a dela. Era criança só no tamanho. Agradeceu novamente e se pôs a andar pela calçada sem buracos. Contava coisas pelo chão. Tinha vontade de brincar, rir, porém apenas suspirou. Olhou a manhã fria e se encarapitou um pouco. Aquele pão seria talvez sua única refeição do dia. Pensou nos irmãos. Por onde andariam? Ela estava só. Eles a abandonaram na rodoviária, não sabia dizer o tempo exato. Talvez dias, meses. Ainda não fazia um ano. Contou pedrinhas que colocou no bolso surrado de seu casaquinho e foi descansar um pouco no banco da praça vazia àquela hora da manhã.

8 comentários:

Beto Canales disse...

interessante!

Biba disse...

Thanks, Beto!!

Beijão
Carpe Diem!!

Camila disse...

Tenho me sentido assim, profª Biba: comendo a vida a seco. Mas quase sempre há um copo de leite sobre a mesa.

Letícia disse...

Perfeito. Você falou da menina que passa aqui em casa e eu dou pão dormido pra ela. Nunca pensei que esse pão tivesse "gosto de vida já vivida". Você acaba de mudar o meu mundo.

Beijos, Biba.
Carpe Diem!!! =)

João Pedro Vicente disse...

pobre menina!

Biba disse...

Camila, ainda bem que temos um copo de leite sobre a mesa que é a esperança.

Beijo
Carpe Diem!!

Biba disse...

Letícia, que bom que um texto pode fazer a gente mudar o nosso mundo...

Beijo e afeto, sempre

Carpe Diem!

Biba disse...

João Pedro, pobre menina, pobre menina...

Beijos
Carpe Diem!!