segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Caravela

A casa era branca e os quartos também. Às paredes seguravam-se uns quadros. Pintura dela. Ele nunca. Mas a mulher gostava de arriscar em cores seus pincéis baratos. E, ouvindo Gismonti, os dois estendiam os braços à procura.

Um dia ela ligou a televisão ao acaso. Viu Luciano Alabarse. Ele disse: "Essa procura, coisa de geminiano mesmo". Sou aquário, disseram. O ascendente dele era Libra. O dela iam averiguar.

Eles sabiam que sim e que não.

Quando ouviam Caravela, então, eles sabiam tudo. De todas as coisas. Daí sentirem-se pobres e humanos.

Ela aproveitou o último tubo de verde e apertou-o com as mãos pequenas e magras. Os dedos espalharam a cor na parede do quarto de hóspedes. Gostavam de chamar assim aquela sala onde era também escritório e ateliê e um espaço aberto dentro da casa. Uma espécie de natureza roeu o concreto. Um musgo. Um grito. Um aviso. Riram. Não era de chorar, por enquanto.

Faziam um esforço grande. Esforço de gigantes. Para acreditar, aceder, intuir. Alguma coisa batendo forte e dentro que era o mesmo que ouvir Caravela e saber. Vinha a certeza obstinada. Seus olhos enredados em não ver além. E isso é que era perigoso. Disso não suspeitavam. Nem ouvindo Egberto. Nem bebendo brandy. Nem se lambendo. E beijando. Nem quando eram bonitos um ao outro. E ele penteava seus cabelos com os dedos. E ela alisava os dele. Nem lendo Pessoa. Nem assim.

Quando a música acabava eles ouviam o silêncio respirando. Medo? Para quê? Eles só compreendiam melhor que nada pode ser compreendido melhor. E ninguém morria. Tocavam suas bocas cheias de perguntas e vinha o beijo abafando as respostas que ainda não. Um dia, sem dúvida.

Para depois, abrir os livros e reconhecer. Para depois deitarem um sobre o outro. Para depois o depois. Bastava-lhes o amor que, esse sim, não entendiam direito de onde ou porquê. Era mistério e luz. Aquele brilho. Caravela.

Ondas batendo. Rochas.
Tudo sereno, no fundo intocado.

8 comentários:

Camila disse...

É bonito ler em teus texto, profª Biba, o ir e vir do leve e do pesado, do magro e do forte, do pobre e famigerado. Me parece que há uma certa tentativa de equilíbrio em teus "personagens", mas que, sem escolhas, são levados pelas ondas.

adri disse...

aii que lindo que tá tdo por aqui! andei meio afastada, correndo, volto aos poucos, mas o espelho é sempre monstruoso. ontem foi domingo, como diz marcelo, um amigo virtual, dia propício para se atirar de precipício. graças a deus é segunda ;)
bjuuuu

Beto Canales disse...

Muito legal. Parabéns.

Letícia disse...

Biba,

Eu fico com vergonha quando leio coisa bem escrita. Texto que fala diferente e traz poesia. Aos poucos, vou conhecendo mais sua obra - sei que há muito que preciso ler. E vou ler. Estarei sempre esperando.

E passa lá no Beto. Como sempre, ele salvou o dia.

Beijos. =)

Biba disse...

Bonito o que você escreveu sobre meus personagens Camila. Agradeço.

Beijos
carpe Diem!!

Biba disse...

Bjuuuu, querida Adri! E não desapareça, viu?

beijo,
Carpe Diem!!

Biba disse...

Legal, né beto? Escrever é uma dádiva

beijão
Carpe Diem!!

Biba disse...

Letícia, mas é apenas um texto sem pretensão, bem simplinho.

Adoro você!
Beijos
Carpe Diem!!