quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O canto

Tricotava. Tricotava sem fim. Um dia ouviu vozes angelicais que vinham do outro quarto. Ouviu com devoção. Com encanto de quem já viveu tudo. Anjos numa rua barulhenta de São Paulo. E ela os ouvia? Coisa de Deus, pensou, voltando a contar os pontos na agulha. A filha, no outro quarto não ouvia nada além das buzinas e gritos entorpecendo o entardecer da cidade grande. Um dia a que tricotava iria contar-lhe o acontecido. Quando fosse a hora. Tudo tinha sua hora. Acabara de errar um ponto. Era preciso refazer. Mas sempre é preciso refazer tantas coisas. A vida, afinal era como seu tricotar incansável. Vez ou outra errava-se um ponto.

6 comentários:

Pattiê que fica, disse...

eu erro um ponto aqui e outro acolá todo santo dia dessa minha vida, e todas as vezes é uma luta e um sacrifício para refazê-los. sonho com o dia em que simplesmente tricotarei minha vida sem precisar me preocupar com os pontos tortos...

Beto Canales disse...

muito legal

Adr.P.K disse...

Eleanor Rigby, Father McKenzie ...

Biba disse...

è, Pattiê, sempre erramos algum ponto,mas podemos seguir em frente sem nos preocuparmos com os pontos tortos. Eu acho que sim.

Beijão!
Carpe Diem!

Biba disse...

Oi Beto, beijo grande.
Carpe Diem!

Biba disse...

Adr, muitos beijos.

Carpe Diem!!