quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Grão

Via no ar da sala a poeira transparente que abarca os dias. Não essa que se posta sobre as coisas. Olhava para o indizível como quem faz uma trança em cabelos de criança. Ontem ela chorou o choro dos inocentes. Daqueles que se culpam por tudo quando a vida é assim mesmo, cheia de truques e pegadinhas. Seu choro-lamento inundou o quarto de uma dor infinita. A gata, olhos semicerrados, fingia não ver que ela se contorcia na dor. Hoje, olhando a poeira dos dias dançando no ar, ela tem os os olhos inchados. Pensa que amanhã vai ser outro dia, como quis Chico Buarque, como querem todas as pessoas, mesmo as que não sabem cantar. Ela não sabe cantar. Vive sem voz, sempre pigarreando. A paisagem na neblina, pensa, enquanto com a mão delicada ousa tocar o ar e vê o movimento suave das partículas sob a luz tênue que entra pela janela. Fecha os olhos, pensa nele. Nos olhos, sempre. Porque é por eles que sabemos tudo. Palavras são somente palavras, filosofava. Cada grão de poeira invisível lhe dava vontade de ser também um. Suspirou aflita. Ela era um tanto aflita. Fingiu segurar o pó com os dedos em pinça. Fingiu que podia tudo o que quisesse, inclusive pegar o inaudito. Soprou a poeira imaginária e recostou-se sobre o sofá. Uma lágrima fez a curva do nariz e outra ficou empoçada no olho esquerdo. Assim é que o dia de amanhã seria melhor que o de hoje, bastava esperar flutuando como um granulo de poeira.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Jorge Drexler

El velo semitransparente
Del desasosiego
Un día se vino a instalar
Entre el mundo y mis ojos.
Yo estaba empeñado en no ver
Lo que ví, pero a veces,
La vida es más compleja de
Lo que parece.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Letícia

Um dia Letícia, você escreveu uma linda, lindíssima carta para mim em seu blog. Faz tempo isso, você havia terminado de ler O Imprevisto. Era mês de junho se bem me lembro e eu não disse nada. Nenhuma palavra de pura emoção vivida nas tuas palavras. Nunca ninguém escreveu carta mais bonita para mim e nunca nenhuma delas foi publicada, assim, pra toda gente ler. Hoje, perdida nos recôndidos de mim, lembrei da carta e me deu saudade de você. Como se eu a tivesse visto ontem e hoje já sentisse o vagar da lembrança. Esta não será uma longa e bela carta. Esta mais para um bilhete. Para te dizer do quanto meu afeto te abraça ao longe e do quanto você é especial para mim. Não, não simplesmente especial, do jeito torto que as pessoas dizem. É mais que isso, você me entende, eu sei. Pois hoje, no calor do verão sulista, olho para seu livro aqui do meu lado e saio relendo. Vejo as marcas da vida, do amor e da morte em tudo o que fazemos. Ser escritor é isso, sair do casulo de vez em quando para se mostrar timidamente aos outros. Logo vem a incerteza e já queremos de volta nosso cantinho para nos resguardarmos um pouco, feitas de um leve contentamento que somos. Letícia, dedico o dia de hoje pra você no meu calendário restrito. Um dia de sol, luz e energia. Carpe Diem!!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Loucura

Pensava coisas sem sentido. Coisas bizarras, irreverentes, trágicas. Sabia que o funcionamento da mente não é assim o tempo todo. Não podia ser, questionava. Teve dias que eram como desvarios. Mente inquieta, ideias loucas. O esquisito era que ficava deitado na cama somente olhando para o teto, esperando passar o turbilhão de imagens que lhe vinham ao cérebro. Quanto mais ficava assim, piores eram os resultados. Temia levantar-se e cair. Tinha medo de ir lá fora e ser atropelado na calçada. Supunha que seria assaltado ou violentado. Seus pensamentos se desencadeavam com uma força destruidora e, dentro dele, corria um bicho ferido tentando amanhecer.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Beautiful Day - U2

What you don't have you don't need it now
What you don't know you can feel it somehow
What you don't have you don't need it now
You don't need it now

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

No inconsciente

Quando vou dormir tenho mil ideias, como todo mundo, imagino. Eu as esqueço assim que adormeço e, dia seguinte, aquele vago sentimento de perda. Por vezes escrevo mentalmente um post, por exemplo, e penso, "nossa, ficou bom". Mas ele se desmancha no ar das coisas inventadas antes de dormir. Uma vez eu gostava de inventar histórias nesse intervalo em que o sono está nos envolvendo. Havia romance (hum, era bom!), drama, coisas espetaculares, coisas zen... Depois, fui apenas inventando pequenos trechos de filmes, contos e agora os posts. Tudo perdido, mas tudo guardado. Sim, porque tem o tal do inconsciente, não é? E, dizem, Freud, mais precisamente dizia, que tudo fica ali armazenado. Um dia volta. Nossa, vai ter muita coisa escondida nesse lugar de vaguidade!

sábado, 23 de janeiro de 2010

Meus amigos virtuais

Sabe do que eu gosto? De ver essas carinhas que vão aparecendo a cada dia nos meus amigos virtuais. Imagino uma história para cada um sempre que visito seus blogs. Tenho minha própria imagem dessas carinhas muitas vezes escondidas por objetos, mãos, véus. O que importa? Consigo ultrapassar essas "barreiras" e ver mais além de tão metida que sou. Nem sempre deixo recados, mas visito meus amigos virtuais que acho maravilhosos, com seus escritos e dizeres sobre coisas da vida, do amor, da sensualidade. Sobre política, aventura, melancolia... Leio de tudo e faço minha triagem. Recolho aquilo de belo e mutante que existe por trás dessas carinhas virtuais às quais aprendi a gostar cada dia mais.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Como um carinho

Ela me diz que nossa cabeça deve ser oca como o bambu. Olho para seus olhos tranquilos e ela pergunta de sou de alguma religião porque passo uma paz tão grande. Sorrio meio sem jeito, mas feliz. Já me disseram que transpareço paz, que sou etérea. Para quem busca a harmonia o tempo todo, ouvir coisas assim é como receber um carinho. Escolho o sino de vento de bambu, claro. Persigo a tenacidade embora seja um tanto sonhadora demais. O oco do bambu para nos deixar aclareados. Ideias em branco para podermos vislumbrar mais longe ou ainda mais perto. Difícil saber. Sinto o cheiro dos incensos. A doce música que se espalha pela loja. Pago e saio ao encontro da chuvinha fina. Deixo-me molhar porque isso também parece que nos purifica. Caminho para casa como quem vem de uma festa divertida porém tranquila.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Fernando Pessoa

Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.


domingo, 17 de janeiro de 2010

O tecido dos sonhos

Foto: Luca Erbes

De que é feito o material instantâneo dos sonhos? Que alados vem e nos fazem suportar as mais terríveis singularidades? Na tarde difusa, sonhei com um hospício no qual todos usavam uniformes de cores diferentes que indentificavam esquizofrenia, transtorno do humor bipolar e assim por diante. Eu não sabia que era um hospital. Queria fazer compras."Que Deus não nos livre de algumas coisas!!", gritei ao sair do local já entendendo o que ali se passava. Havia um número que era o nome desse lugar, mas a memória dos sonhos é esvoaçante e levou o número quando abri os olhos. De que é feito esse material imaterial dos nossos sonhos? Que aflitos deslizam, flutuam e saltam sobre nossas redes neuronais? Invento assim, que é feito fotografia. Que tem uma película invisível, acho mesmo que é digital e tem movimento, como no cinema, mas podemos capturar um momento que fica em nossa lembrança, feito um recorte fotográfico. Um "instante decisivo" de Cartier-Bresson.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O vinho foi o suficiente. Como está sendo sonhar. Mas a existência parece sempre querer dizer mais, então o cálice transborda e é bom. Isso é tudo o que sei no momento...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A vida

A vida não é o máximo? É como nos dizia Hitchcock, cheia de suspense. Não sabemos nada sobre o momento seguinte, um milésimo de segundo e vem um terremoto, uma doença, um vazio profundo, uma grande dor. Mas também vem o orgulho por realizar algumas coisas que julgamos importantes. Vem a luz e a essência das marés descortinando águas. Vem o calibre, a pontaria, o alvo. A vida é mesmo uma incógnita que não cansamos de desmerecer com olhos sempre fechados ao belo, ao inexplicável. É preciso se desfazer do que nos incomoda, reservar um tempo para rever o tempo em sua inesgotável travessura. Nossa trajetória aqui se faz tão efêmera quanto dormente, se não sentimos o natural chamado da existência. Abro os olhos para o mundo e finalmente vejo. Hortelã, pimenta, manjerona, os sabores também variam. As cores me afetam instantaneamente enquanto traço um esquema de reverberar o imponderável.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Dia desses enovelo esse cansaço que me ronda impaciente. Faço novelo e jogo para os gatos brincarem. Meu cansaço é tão imprestável como qualquer cansaço, por isso me irrito dele. Ando assim, escalando montanhas de preguiça à força, com força, sem nenhuma força mais... Tudo fica pálido e distante, como quando enjoamos no navio.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A espera


Pingentes adormecidos sobre a mesa de estar. Na sala, tudo obsessivamente arrumado. Coisas com coisas que se combinam. Controles remotos em ordem de ascendência: o menor para o maior. Lindos buquês de rosas fakes. Toalha de linho. Cortinas de voil. Tudo em ordem e aromas de vanilla no ar. Ela espera qualquer coisa desse dia branco, começa a desenhá-lo assim, arrumando as coisas com sua lógica cartesiana. Depois, vai almoçar. Salmão ao forno com ervas e batatas. Um arroz para acompanhar. E, depois, haverá o depois que ela ainda não modulou com seus passos vagarosos de quem espera qualquer coisa acontecer de um momento para outro sem muita ansiedade. De fato, as sextas-feiras são feitas para se desapegar delas, pois o sábado sempre promete mais.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Dia estranho, entre sol e muita chuva. Norah Jones me acompanha nesta tarde infinita. Vejo a construção de um edifício daqui da minha sacada, gente trabalhando duro, apesar do tempo. Olho minhas plantinhas e sonho com um jardim imenso, de se perder nele. Penso coisas vagas pois vago é esse dia de tamanha melancolia...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Avatar


Espetáculo visual incomparável, Avatar é um filme também para reflexão. Sim, refletir é tarefa para o cinema que, ao longo da história, tem manifestado um olhar crítico sobre vários temas importantes. A guerra e o desmoronamento ético do ser humano, a ecologia, o mundo da magia e da ingenuidade, podem ser alguns dos temas a se explorar no politicamente correto filme de James Cameron. Aliás, eleito pelo Uol Filmes, como um dos melhores de 2009, ao lado de uma produção modesta como Gran Torino, de Clint Eastwood, e do impagável Bastardos Inglórios, do sempre criativo Quentin Tarantino. Indico todos.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Pra você...

Acredite, nenhum desejo é tão forte quanto esse. De estar assim com você. De ser assim com você. E ganhar o amor que ganho sem reticências ou ponto final. Acredite, eu encontrei um mundo em minha cabeceira, que é estar sempre ao seu lado. As noites são intermitentes porque avanço para o infinito dos sonhos inenarráveis. Porque alcanço distâncias que desconhecia e depois é duro voltar pelo mesmo caminho. Chegar ao porto seguro. Você me tem nesse lugar de continuidade, não de inconstância. Quando penso em você é com uma leve vontade de beijar. A face, os olhos, a boca. Essa vontade cresce quando você me toca com seu jeito moleque de dizer o que está querendo de mim. E ardemos em chama lenta porque a fogueira pode queimar os sentidos. Acredite, nenhum desejo mata mais o meu desejo do que esse de passar a vida com você. Retirando poeira das velharias e procurando o novo que está no porvir. Para nós, Paris será uma festa.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Miudinha

Um sorriso para o Ano Novo!