Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Dos sonhos dela

Lembrava das formigas no pote de açúcar, o que parecia vindo de um sonho qualquer. Mas esta noite, não. Soube das grades de giz riscadas nas paredes sem janelas. E ela dando aula para ninguém. Por vezes se excedia e gritava. Olhava ao redor as grades e girava como nos filmes giram os personagens em desassossego. A manhã sombria trouxe o sabor de um sonho engasgado. E as formigas no açucareiro da avó? Ou era na casa daquela amiga... como era mesmo o nome dela? Deu-se conta que as lembranças eram da infância, mas o sonho, esse fora da noite passada. Grades de giz. Podia apagá-las então, abrir a porta (havia uma?) e sair da sala minúscula, cubículo. Ah, tanta coisa tinha que aprender ainda. Lidar com os sonhos era uma delas. Por isso, gostava quando observava seu próprio sonho e mudava os rumos do enredo quebradiço. Sonho tem disso, tudo é quebradiço ou arredio. Uma vez contou para a analista que observava seus sonhos enquanto sonhava. A mulher fechou o senho e disse que isso era impossível. Ninguém se vê no próprio sonho. Nunca mais contou nada para ela. Apenas ficava lá falando nada. E a analista fazia suas impecáveis anotações feliz por resolver o caso dos sonhos. Há coisas que não se contam, aprendeu. Há sonhos demais e podia ser ativa neles ou apenas uma observadora de si mesma. Assim, tomou o café fervente enquanto uma pequena formiga escalava o açucareiro dela...

Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Zélia Duncan

PELO SABOR DO GESTO
As-tu déjà aimé? | Alex Beaupain
versão | Zélia Duncan

Quem já tocou o amor pelo sabor do gesto?
Sentiu na boca o som? Mordeu fundo a maçã?
Na casca a vida vem tão doce e tão modesta
Quem se perdeu de si?
Eu já toquei o amor pelo sabor do gesto
Confesso que perdi, me diz quantos se vão?
Paixões passam por mim, amores que têm pressa
Vão se perder em si

Se o amor durou demais, bebeu nas suas veias
Seus beijos de mentira não chegam muito longe
Paixões correm por mim, são só suaves febres
Seus beijos mais gentis derretem pela neve
Pra que tocar o amor, pelo sabor do gesto?
Se o gosto da maçã vem sempre indigesto?
Amarga essa canção, os dias e o resto
Se perde como um grão

Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto
Te empresto da maçã vai junto o coração
Esquece o que eu não fiz
Te sirvo o bom da festa
De um jeito mais feliz

Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor
Carinho sem querer me cansa e me dói

Se o amor vem pra ficar faz tudo mais bonito
Me basta ter na mão e o corpo tem razão


Terça-feira, 14 de Julho de 2009

E estamos mais fortes e sábios e unidos. Ele escreveu assim, nessa ordem que me pareceu a mais correta, a mais firme. Ele tem se desgastado tanto e ela também. Eles têm um amor daqueles que os outros não entendem e, por isso, sofrem. Eu apenas olho com meus olhos de ver e penso que o amor é mesmo uma coisa indizível. É só para se sentir. Viver. Saborear. Que eles vivam esse amor complicado mas estejam assim: fortes, sábios, unidos. Eu quis abraça-los por um instante.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Banalidades

Os tempos são outros e tantos que até perturbam o sonhar da gente. E de dentro vem aquela náusea sartreana por algumas coisas indevidas. E por fora surgem sulcos e demandas impensadas. Não saber o que há com o eixo enferrujado do mundo é o que dá mais medo. Ninguém suporta essa indefinição de alma que algumas pessoas apresentam. Ninguém suporta esse não-fazer por estar atrás de grades envidraçadas. Basta quebrá-las. Alguém aqui quer a liberdade? Todos dizem sim, obviamente. Pois a liberdade é o que há de mais terrível quando não se sabe o que fazer dela. Os tempos, eu dizia, são outros. O sol se esconde há semanas sob grossas e tempestuosas nuvens. E, enquanto isso, alguns ficam ocupados em saber das banalidades dos celebrity shows.

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

O bilhete

Então você leu. Era apenas um bilhete, colado às costas de um livro. Mas você leu e isso me agradou. Até seu silêncio durante anos, que me fez pensar que você nunca o havia encontrado. Como um detetive dando conta do acaso, um dia você o encontrou e leu. Só agora fico sabendo e algo me diz que não é coisa comum a gente postar um bilhetinho nas costas de um livro. Não pensei em tudo, na sua reação, na demora, na saudade. Para dizer a verdade, naquele tempo acho que eu nem pensava direito. Apenas sentia. Uma vez, lembro bem disso, pendurei no quarto uns bilhetes enormes dizendo o quanto você era importante para mim. Havia por toda a parte. Nos espelhos, na cabeceira da cama, nos abajures, nos tapetes, nas cobertas, embaixo do seu travesseiro... Lembro que isso não causou o impacto que eu esperava, o que me fez corar diante de minha ingenuidade. Você pegou os bilhetes um a um e sorriu. Juntou-os e amontoou em algum lugar. Nunca mais os vi. Você era assim, que se há de fazer. Depois de todos esses anos, descobre um único bilhete e aí você é quem cora e se arrisca a ler. Já não sei o que nele escrevi. Vê? O tempo pode ser impiedoso com nossos sentimentos.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Um gole de conhaque

Tomo um gole de conhaque para me aquecer. Febre, paracetamol, tudo me faz esquecer o que eu queria dizer. Ah, sim um gole de conhaque e a sua carinha estampada nos meus seguidores. Você sabe que falo de você... Você sabe o quanto eu reclamei dessa ausência tua. E agora te vejo entre os demais, os quais prezo tanto. Mas, sabe, você estar ali é como aquela avenca nascendo, ou uma margarida no meio do asfalto. Porque você tem algo de especial que nunca consegui entender direito. Talvez o modo de ser. Porque me ligo muito no modo de ser das pessoas. Isso é o que cativa nelas ou as desprende de mim. Um modo de ser é algo tão particular, tão para dentro. O fato é que amei sua presença aqui. Mais um gole de conhaque para enfrentar o frio e a coriza insistente. Tosse. Dores pelo corpo. É só uma dose para relaxar tudo, que preciso muito ficar zen nessa hora etérea do domingo.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Naquele dia fazia um frio danado. Na sala de grandes janelas, ele me chamou para um cantinho. Senti a doçura dos raios acariciando meus cabelos, o toque quente nas minhas costas. Foi um momento generoso. Mas, sabe o que veio depois? Uma bela gripe/sinusite/rinite!! Não culpo o solzinho meigo, é claro. Contudo, vejo que somos tão frágeis se pensarmos nos animais, por exemplo. Eles, com esse frio, logo procuram os lugares mais quentes, o sol é um aliado. Ficam horas espalhados, barriguinhas para cima, desfrutando daquele calorzinho gostoso. Eu, ganhei uma tosse terrível, coriza e mal-estar. Ontem e hoje não consegui trabalhar. Fico só pensando no abraço que o sol me deu e em como foi aconchegante. Agora, as cobertas e os medicamentos é que me fazem retomar um pouco desse aconchego. Aliás, tô voltando pra cama!!

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Julho

... julho em branco me dá toda uma liberdade que eu nem conhecia. Viver sob o estabelecido é um dos nossos erros. Que venha a liberdade de um julho sedento de descanso, amor e diversão. Com uma certa vaguidade, um certo olhar para os demais a nossa volta. Que seja bom e diversificado.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Junho estagnado

Este junho assim sangrado de fora a fora. Esse junho machucando os pés descalços lhe dá vontade de sumir. Os dias têm sido tensos. As noites de claridade que não se redime em alguma produção. O travesseiro, as florezinhas dos lençóis, suor e insanidade. Fechando os olhos ele se dá conta do escuro, mas é abrindo que não vê o céu. Estará cego de vontade de pensar? Cego de desejo de dormir um sono de anjos? O cigarro finda. Então percebe a brasa avermelhada. Então não está cego. É fome. É sede. É alguma coisa ligada aos ânimos e ao corpo. Objeta que é só cansaço de um junho que finda interminável. A manhã escorreu lenta como um fio de água na vidraça suja. Este junho assim desfeito é o que de melhor poderia acontecer a ele. Fecha os olhos novamente e suga o cigarro. Toda a nicotina. Para morrer dela.

Domingo, 21 de Junho de 2009

Vitor Ramil

Se um dia qualquer
Tudo pulsar num imenso vazio
Coisas saindo do nada
Indo pro nada
Se mais nada existir
Mesmo o que sempre chamamos real
E isso pra ti for tão claro
Que nem percebas
Se um dia qualquer
Ter lucidez for o mesmo que andar
E não notares que andas
O tempo inteiro
É sinal que valeu!

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Diploma de Jornalismo

Estou parada no meio do caminho e no meio do caminho, avisou Drummond, existe uma pedra.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Voltar é sempre aprender, como ir é sempre descobrir. Algo fica, algo vai, algo se renova. Pontes. É nelas que penso ao querer esse aprendizado. Elas unem duas metades, duas partes, dois interesses. As pontes nos renovam. (Veja As Pontes de Madison, por exemplo). Falo das pontes como metáfora, vocês já entenderam. Por isso, algumas delas, em tempos difíceis, podem ruir. Voltei com essa sensação, de que uma ponte ruiu no meu caminho e eu nem tive tempo de escapar dos escombros. Dói. Despencada e frouxa, desfeita. Dói. Mas, se voltar é aprendizado, tenho que tirar alguma coisa disso. Preciso ainda me refazer dos ferimentos. Como é bom estar de volta...

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Ele que amava tanto


Cabia tanto dentro dele, mas tanto, que pensou que era amor. Só o amor podia prometer tal preenchimento. Quantas vezes se olhou no espelho e pensou: "Sou um ser do amor mais amado". Ele , então, sorria. Quando o dia o alcançava cansado do trabalho, dava de ombros. Ia ao banheiro mais próximo e se olhava:"Estou envolto em amor". Mas logo corrigia: "Estou ensimesmado de amor". Passou-se o tempo e ele insistia: aquilo era amor. Uma sensação gorda, sem fome de mais nada que não fosse luz, liberdade, harmonia. Um dia ouviu a coruja piando e sorriu satisfeito: aquilo era amor vindo da natureza. Esbelto e fragmentado pelo tempo, ele começou a juntar as peças que faltavam e realmente tudo coincidia no mesmo texto escrito ou imagético: amor. Escreveu cartas. Fotografou o improvável. Bebeu licor de menta e chocolate. Adotou um gato. Correu livremente por entre as cercas que o separavam do campo externo. Nessas horas era sempre advertido pelo enfermeiro maior, aquele de olhos contraditórios. Nesse caso, ele voltava meio triste, mas ainda assim sentindo-se impregnado de amor. Não lembra quando deixou o trabalho, a mulher e os filhos. Não lembra como foi parar ali, que era um lugar de enfermos. Para ele, tão sadio, isso nem tinha importância. Importante mesmo é que ele era feito do mais puro e absoluto amor.

PS: vou ficar uns dias fora, aproveitem bem o seu tempo! Carpe Diem!!

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

O passado e suas teias

Eu fecho os olhos e nem precisava. Revejo tudo e não queria. Repasso quando quero me desfazer. Recuo querendo avançar. Talvez o dia não seja perfeito para rememorar. Nenhum é. Mas podia ter feito sol ou chovido, para não ser um dia abismático como foi. Teria olhado para trás de outro modo. O que importa realmente importa? Eu fecho os olhos e vejo. Lá está, como um enredo em flashback. Lá está, o passado todo. Vítreo, petrificado, sem as nuances que dele sempre guardei. Por que agora fica assim, tudo cinza-azulado enquanto as lembranças convergem a um portal de ideias insanas? Vítreo? Será mesmo que ainda sei distinguir esse espaço entre o ontem e o amanhã, que é meu hoje-agora-aqui? Fecho os olhos. Respiro. Dou um passo, outro. Talvez seja isso, ir em frente mesmo que vagarosamente. Com um certo temor. Dúvidas. Os olhos se abrem e a imagem congelada é a dele sorrindo um sorriso que só conheci naquele rosto.

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Voo 447

Começou dizendo assim; "Alguma coisa aconteceu comigo". Era alguma coisa tão estranha que não sabia como falar dela. Olhou para os lados como a pedir socorro. Fechou os olhos. Colocou as duas mãos enluvadas na testa e chorou. Um choro manso, descabido. Ninguém ao redor. Tudo que nele havia agora era espanto e estranheza. "Alguma coisa aconteceu comigo que não consigo entender". E, entender é o que sempre sobra de nossos desdobramentos mentais. Os sentimentais também pedem entendimento. Era o caso dele. Não. Não queria falar sobre o voo. Só queria anoitecer assim, com aqueles olhos inchados de chorar e experimentar a dor pela primeira vez sem ela. Não descobriria tão cedo que o luto pede tempo e a ausência é sempre maior.

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Decisão

Usava um chapeuzinho e todos os agasalhos a que tinha direito. Disseram que iria nevar. Dizem tantas coisas que ela mal pode acreditar naquilo. Anos passados houve a mesma informação imprecisa. Bastava morar na Serra Gaúcha para que logo surgissem esses boatos. Ela, enfim, enfrentou a manhã gelada quando a vontade era de ficar em casa, no quentinho. Mas, Bárbara tinha um compromisso importante. Na verdade um encontro em um pub novo na cidade. Pubs abrem pelo final da manhã e servem bons lanches. Esperaria por ele naquele local, como haviam combinado dias antes, por telefone. O frio quase a fez desistir, mas pensou que ele ficaria muito magoado ou coisa assim. Encontros desfeitos sempre deixam alguma marca, por pequena que seja. E, Bárbara não admitia fazer isso com alguém. Tinha dedos para tudo, como se diz, era "cheia de dedos". Ela ajeitou o chapeuzinho e os brincos de borboleta e sentou em um sofá confortável. Logo ele apareceria com aquele sorriso maroto. Ela se continha. Era avessa à demonstrações exageradas de afeto, quando, de fato, estava visivelmente apaixonada. Para Bárbara, ele não percebia nada. Era discreta ao cubo. Ele, no entanto, revelava seus sentimentos aos poucos. Uma mensagem no celular. Um telefonema insuspeitado. Um convite para o almoço no pub. Bárbara sentou e esperou. Tomou um café trufado. Olhou uns folhetos do bar. Cruzou e descruzou as pernas várias vezes. Observou as pessoas que chegavam. A cada vez seu olhar se iluminava, agora era ele. Porém, nada. O danado não apareceu. Ela, então, conformada, pediu outro café trufado e decidiu que nunca, nunca mais respondia um e-mail dele. Falar até falava, o trivial. Mas, a ausência dele era agora uma ausência para sempre.

Domingo, 31 de Maio de 2009

O retorno

Tenho vontade de Clarice e Caio F.. Volto com fome de leitura e densidade. Com vontade de trocar ideias e de abraçar. Sintam-se abraçados, portanto. Volto cheia de energia e com o brilho do olho reluzindo feito um diamante raro. Ando cada vez mais para a frente, cada vez mais rápido, mas sem estresse agora. Tudo é espelhamento. Vivência. Alegria. Viajar é sempre um bálsamo, mesmo que a gente esteja em um ônibus e na chuva. Vá, vá, sempre se pode aproveitar para um boa conversa, um soninho repentino, uma boa comilança (passas, chocolate, rapadurinha, barra de cereal). Sinto que tudo pode entrar em sintonia quando se está aberto a isso. Foi o que aconteceu nesse Congresso em Blumenau, O Intercom Sul. Tudo valeu a pena, como dizia Pessoa, porque a alma não é pequena. Desta vez sem fotos!

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Turma, gente, pessoal!!! Hellllooooooooooooooooo!!! Quero avisar que estarei fora por uns dias, volto semana que vem, tá? Vou para Blumenau, no Intercom Sul. Deixo meu beijo. Carpe Diem!