quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Com os anjos

Onde estão os poemas,
pergunta a voz amiga
Digo que estão em um
lugar lilás senão azul
Digo que me deixaram
zonza e desprecavida
Digo que sinto falta mas
que eles não me pertenciam
O poema nasce e pronto,
já é do mundo, o danado
Não precisa crescer fora,
já nasce crescido e veloz
Mas onde estão os poemas?
Digo que estão com os anjos
E que assim seja

O amor

É cedo, vamos pensar no amor. Nosso velho conhecido. Estamos tão longe dele às vezes por pura incompetência nossa. Vamos celebrar o amor nestes dias vindouros, nestes dias que são quase como dias de magia e sedução. "Qualquer maneira de amor vale a pena/Qualquer maneira de amor vale amar". Sejamos engenhosos, criativos. Embarquemos na vaga do amor, as vagas marítimas sempre tão perigosas mas que levam ao novo, ao desconhecido. "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã/Na verdade não há"...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Ezra Pound

"Toda a arte começa na insatisfação física (ou na tortura) da solidão e da parcialidade."


Jorge Luís Borges

"Pegar um livro e abri-lo, guarda a possibilidade do fato estético. O que são as palavras dormindo num livro? O que são esses símbolos mortos? Nada, absolutamente. O que é livro se não o abrimos? Simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas; mas se o lermos acontece algo especial, creio que muda a cada vez."

domingo, 16 de dezembro de 2007

Estranho. Sinto falta dos poemas que se perderam, não no tempo, mas virtualmente. Tenho vontade de escrever mas alguma coisa anoitece em mim a poesia. Talvez deva ficar guardada algum tempo. Enquanto isso, ouço Yamandu, coisa que lembra meu irmão. Esqueço dos perigos um pouco e me arrisco assistindo O Quarto Verde, de François Truffaut. Henry James nas telas. Faço cara de desentendida quando o assunto é morte. É um jeito de não querer sofrer mais. O filme incita os sentidos neste sentido. Depois, adormeço feito criança e tenho aqueles pesadelos... Melhor não contar, é coisa Stephen King.

sábado, 15 de dezembro de 2007

e.e.cummings

nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Feliz

Sensação de preenchimento, de luz ao redor. Vontade de muitas coisas que mimam e encantam a gente. Um filme. Um livro. Um poema... Há muita coisa para ser vivida e o tempo não espera por ninguém, já avisaram os Stones. Voando pela imaginação só penso que esse agora poderia sim ser interminável e que a gente só aprende na marra. Tenho aprendido muito, com certeza.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A pá e a terra

De dentro ela só vê o impossível. E ela sou eu, agora, neste instante ínfimo no qual tudo se perde de repente. Ela que me evita, sonhou que cavava à procura de algo valioso que havia enterrado há muito tempo. Com uma pá eu a ajudava, pois era ela. Só vislumbramos o pequeno tesouro que, suponho, seja mais do que tudo algo inatingível. Mas um dia o tocamos tão de perto que fomos parte deste "tesouro". O que está escondido virá à tona em um amanhecer qualquer depois que eu e ela sonharmos novamente com a pá e a terra.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sobre perdas e danos

Perdas e danos
desalinho
desânimo e Ritalina

Hora da sorte permeada
pela hora da zona morta

Não há castigo maior
do que perder a memória
ainda mais sendo ela
a nossa extensão de tudo

Sobre perdas e danos
caminhos
que inúteis se revelam
caminhos
que também transcendem
se a gente tiver força e coragem
de prosseguir
caminhos
de bits and bytes, enfim

domingo, 9 de dezembro de 2007

Vazio virtual

Difícil, mas retorno. Um tanto triste pela perda total dos meus dados guardados no Hall. Ele levou com ele meus segredos, meus poemas e contos, minhas aulas já organizadas... Os meios como extensão do homem, como lembrou Caco... Essas extensões não são confiáveis, como não o é a memória da gente tampouco. Agora, tenho que começar do zero. Hoje é domingo, mas não tem poesia. Tem um vazio enorme deixado pelo Hall. Um vazio virtual, vejam só. Sartre com certeza não pensou nisso.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Bem Caio F.

Cheiro de almíscar

Uma coisa anos 70

Ficou atenta ao

Próximo passo, o desenrolar

Uma margarida no asfalto

Tulipas tamancos e moinhos

Algo assim bem Caio F.

Mas não veio nada demais

Só uma saudade roendo

Uma vontade de entrega

Um comercial na televisão

Cheiro de patchuli

Lembranças de viagens

Cabelo longo despenteado

Um cachecol vermelho e

Uma vontade de Rimbaud

Algo assim bem Caio F.

Mas depois dos cheiros

Nada mais aconteceu

Só um céu lilás por trás

Dos edifícios e muros.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A leitora de Calvino

Lia, displicente, Ítalo Calvino

enquanto o dia se modificava

Do sol abrasador veio a chuva

E com ela uma certa melancolia

Lia, com calma, Ítalo Calvino

Se um viajante numa noite de

inverno era insano e perspicaz

Na sua busca por arrebatamento

ficava sempre devendo um tom

A melodia nunca se completava

Mesmo assim, lia solenemente

Ítalo Calvino e pensava que a

vida é mesmo um mistério a

ser desvendado pouco a pouco

A chuva intensificou seu interesse

pela leitura e a fez desdobrar-se

em uma mulher-livro, impiedosa

sábado, 24 de novembro de 2007

Sábado...

Vontade alguma, de coisa alguma. O sábado vem como uma interferência artística e me deixa assim boquiaberta, sem saber dos seus desígnios. Tenho vontade alguma, já disse, e isso é mesmo para ser redundante. Devo ter visto muito Antonioni, pois sinto aquele tédio de que ele tanto "fala". Uma coisa assim, existencialista, sartreana. Vai saber o que fazer para parar esse fluxo que já está parado mesmo. Incongruência? Talvez. Mas o sábado veio assim de dentro de uma certa bruma, de um certo nevoeiro que mais parece poeira. Tenho que espanar esse pó. É o que parece.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Um segundo apenas

Katzenbach à espera, assim

como os momentos líricos

Tudo se aglutina feito cola

Não há tempo de contemplar

A vida corre intensamente

Enquanto, eu, lago sereno,

tento acompanhar as ondas

que vêm de um mar agitado

Nem sei de onde ou porquê

Katzenbach à espera para me

contar a história de um louco

Enquanto isso, ouço Drexler

E penso em um segundo de

uma dúbia e estranha paz

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Cárcere

Chico Buarque

se ouvia ao longe

Enquanto a lua

vaga

entornava luz

E eles se beijavam

com fome feroz

Diante deles

os guardas sorriam

com desfaçatez:

- Deixa que beijem,

diziam -

pois a execução

já está planejada

sábado, 17 de novembro de 2007

Teu olhar

Te olho, te digo, bendigo esse olhar

Que vem com tamanha loucura que

Arrepia-me a pele só de pensar

Naquilo que não podemos

Naquilo que já fizemos

Naquilo que está no ar

Te olho, te digo, bendigo esse olhar

Por tudo que fomos e ainda seremos

Te olho, serena, sempre a auscultar

Que sonhos te cercam por trás desse olhar

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Cora Coralina

NÃO SEI...

Não sei... se a vida é curta...
Não sei...
Não sei...
se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Fernando Pessoa

"A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus."

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Terror

É uma gastura no estômago

Uma vontade de água e ar

Expandindo os pulmões rarefeitos

É uma impostura de táticas

Todas elas perfeitas para se salvar

Mas não encontramos saídas

É uma vontade torpe de ganir

Feito bicho acuado, rosnar rosnar

É uma aventura perigosa que

O medo só pode expandir e quando

Tudo não passar de silêncio, então

Será a hora de fugir e implorar

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Prece

Era a hora certa, a de quedar-se

Redimir-se e implorar piedade

Nessa vida tão desgastada

Não havia luzes suficientes para

Iluminar seus ardores febris

Pois se é feita de luz toda a febre

Que suplica ao corpo que se deixe

Levar para sempre todo o sempre

Era a hora do espasmo e da oração

Que ele ficou soçobrando na casa

Sem forças para dizer um verso

Uma horda de palavras se fechou

E ele de tão sincero ficou mudo

Ficou do avesso e ninguém viu

sábado, 10 de novembro de 2007

Os gatos


Se lambem e lembram o

toque da mãe de língua

áspera mas aconchegante

Os gatos de pelúcia se

aninham no colo da dona

E ronronam de alegria

Arranham os móveis e se

deleitam com suas whiskas

Os gatos não se aborrecem

Eles se distanciam do redor

Eles de distraem para dentro

Eles meditam budamente

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Franz Kafka

"Lemos para fazer perguntas".

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A noite clama

Estou perdida

Você é meu caos

Desencontrada

Reviro-me nos lençóis

Penso em begônias

Em plantas e segredos

Rolo na cama vazia

Durmo acordada

Porque ouço rumores

Talvez teus passos

Na escada que não tenho

Talvez sejam as vozes

Como a dos esquizofrênicos

Estou perdida e a noite clama

Pelo sono, pelos sonhos

Que não vêm, que não vêm

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Carlos Drummond de Andrade

"Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho".

terça-feira, 30 de outubro de 2007

As Horas

Hora cheia, hora quebrada, hora vazia

Hora aberta encoberta descabelada

Hora silenciosa de brumas e sovéus

Hora do ócio para fazer o que não

Se pretende realmente fazer fazendo

Hora cheia, hora quebrada, hora vazia

Hora vã epifânica insensata marcada

Hora de alegria plena de inquietudes

Hora dispersa reversa inversa povoada

Hora do improviso do impositivo do adeus

Hora gitana perversa acabrunhada infeliz

Hora da brincadeira e da verdade inteira

Hora do sacrifício da luta da rebeldia

Hora cheia, hora quebrada, hora vazia

Hora prenhe estéril anônima alquebrada

Sonâmbula hora macabra nosferática

Hora emblemática solene intempestiva

Hora que grunhe no chamado das horas

Que ficam batendo no relógio da igreja

domingo, 28 de outubro de 2007

Lugar Algum

Vi você com aquele jeito manso e distraído, como se o mundo apenas estivesse aí, para coisa alguma. Como quando você era criança e a gente brincava de olhar as nuvens ou deitava no tapete da sala e ouvia Bach, lembra? Você desde cedo gostava dos clássicos o que o fazia ser mimado pelo nosso pai. Eu não me importava, gostava mesmo era de resolver quebra-cabeças.
Sabe, eu não consegui dizer, mas ontem sonhei com você. Havia o
pequeno dragão sobre a mesa, que você dizia que era para proteger. A cortina deixava entrar uma luz suave que se expandia sobre a escultura e sua mão quase tocava nela com delicadeza. No sonho e na realidade houve este gesto inconcluso, pois você parou a mão no ar e ficou olhando seus próprios dedos longos, nosferáticos, se é que essa palavra existe. Foi esse gesto que me fez estremecer naquele dia.
A vida segue indiferente. Ninguém mais telefona para saber se você superou ou não. O tempo cura e também afasta. Nós estamos nos afastando, era isso que eu precisava dizer.
Hoje, diante de você, dos seus olhos turvos, faltou-me coragem. Como no dia em que você ficou no parapeito, olhando os carros lá embaixo e eu simplesmente duvidei. Da vida, do amor, da fé. Naquele dia você desceu, quieto e sério, numa performance esmagadora. Eu só consegui respirar porque os pulmões se negaram a parar. O susto-medo-horror está até hoje em mim.
Nunca mais fiquei vendo o tempo passar na sacada, somente hoje voltei para cá para rever o perigo enquanto a chuva lava o asfalto. O estranho é que eu percebia suas atitudes, mas achava que isso não queria dizer nada. Esquecia que cada sinal tem sua força específica. E eles se sucederam, cumprindo um destino.
Diante dos seus olhos que olham para lugar algum, minha coragem é vencida pela sensação de impotência. Tenho me perguntado: por que ou para que você retornaria? Vi uns rabiscos sem sentido aparente a seu lado, perto da lixeira. Reconheci algo em você que não sei bem definir. Eu gostaria de lhe falar de mim e do mundo. Para tentar fazer com que você me veja. E, talvez volte para casa.

Eu parei de chorar porque até isso cansa. Estou realmente exausta. Daí que vê-lo assim é como me calar também quando eu deveria gritar. Foi uma escolha sua. Ir se afastando, abrindo um caminho desconhecido para o qual só você tem acesso. Por que obrigá-lo a voltar? Ninguém compreende isso. Eu sim, talvez porque também nunca quis o que se chama mundo real, talvez por isso eu o compreenda. O seu silêncio é como uma marcação de teatro. A gente sabe a fala de cada um e também qual o passo seguinte. Aqui eu devo parar. Essa é a sua marca. O silêncio é agora a sua fala maior. De dentro de minha dor eu me calo para que você se fortaleça. E, se você realmente me olhar, talvez eu veja nos seus olhos e eles deixem de ser turvos para mim. E, quem sabe eu compreenda finalmente.

sábado, 27 de outubro de 2007

Sereia

Provar o sabor da isca

E sentir-se fisgada por inteiro

Deixar-se levar mar adentro

Com as ondas batendo na pele

Provar-se sereia capturada

E aceitar seu destino grego

Sem Olimpo mas com Ulisses

Sem olheiras nos olhos tristes

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

O nada

De nada ao nada topamos

Descemos ladeiras de pó

Vemos estilhaços no chão

O nada comanda o vazio

Dele nos fartamos em vida

Dele aprendemos o mote

Que tudo é disperso e ilhós

Com as linhas de costura

De nada ao nada topamos

E seguimos de algum modo

Tentando decifrar enigmas

Querendo entender o riscado

Quando somos tão pequenos

E vagos e vãos que nada na

Verdade importa mais que o

Próprio nada que nos cerca

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Ser poetisa

Ser humilde e sábia como Cora Coralina

ter todo o encanto de Florbela Espanca

saber do limiar como Ana Cristina Cesar
declamar a existência como Lya Luft e

saber de tantas outras poetisas a povoar

diletamente o meu pequeno universo de

cores, aromas, serenos da madrugada...

ser simples e generosa para poder lidar

com a palavra mais complexa e febril

dar-se conta de que o mundo é tão mas

tão áspero que sua superfície nos dói

ao mínimo toque descuidado e infantil

ser serena e breve como a andorinha

e plena águia quando a noite acontecer

saber das delícias e tormentos de ser

poetisa em tempo de megabytes, enfim

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Esperança nele

Esperança quando ele vem

através de uma palavra ou

um aceno perdido na rua

Esperança quando ele vem

de um modo luminoso mas

calmo e santo que dá tontura

Esperança quando ele vem

e o amor não se mede mais

em palavras ou despedidas

Só se ajeita na cama e dorme

Só se arruma perfumado e vai

Esperança quando ele bate

e a porta se abre de uma vez

E ele diz qualquer coisa que

até já esqueci porque o que

importa é que ele venha e volte.

domingo, 21 de outubro de 2007

Espera

Há momentos como esse

De pura introspecção sem

Nenhum arrebatamento só

Luz inflitrada na alma que

Se abstém de dilatar-se

Fica sozinhando coisas e

Absorta no corta pulsos

Não avista saídas plurais

Há momentos como esse

Em que o coração se turva

Como se água barrenta

Tomasse conta dos átrios.

Nenhuma alegria aparece

Aos olhos agora cansados

De tanto clamar e esperar

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Poetar

Poetar é tarefa que urge

Como o tempo a emergir

A cada momento secreto

Em que nos arriscamos

Poetar é entrega e dor

Também alegria e prazer

Na escolha da palavra

Mais exata, absoluta

Poetar é desenferrujar-se

Brincar com os períodos

Alicerçar rimas em vão

Caprichar nos antônimos

Poetar é sobretudo dar-se

Ao desconhecido um pouco

De nossa alma descalibrada

Tentando compensá-la assim

Poetar é investigar o vazio

Instigar o que reluz dentro

Como ouro fosse em nós a

Deslindar navios afogados

Poetar é entreter-se em ser

Por alguns versos a mais

Por alguns ritmos inefáveis

Por alguma voz do coração

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Amor de Outubro

Um leve afago, um vago aperto:

Onde andará meu amor de outubro?

Onde estará a fruta madura e

o repensar da inocência perdida?

Um leve afofo, um vasto caos

Depois de tudo ele some no cais

E, de longe, só vejo seu vulto fugaz

E, de longe, só entendo a despedida

como algo inconseqüente e cruel.

De dentro dos sonhos ele vem ainda

Depois de um leve afago, um véu

de laços indiscriminados nos atrai

e distrai do esquecimento fatal.

Um breve afago, um largo aperto:

Onde andará meu amor de outubro?

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Luz

Fartar-se de luz apenas

Ouvindo James Blunt:

“Dê-me razão mas

não me dê escolha”

Armar a escotilha

Saltar no mar gelado

Declamando Blake

Chorando Bergman

Fartar-se de luz apenas

Lendo Fitzgerald

Revendo Bertolucci

Amando pelo avesso

Revirar-se pela lua

Num movimento solo

Olhando a Terra como

Quem fosse astronauta

Fartar-se de luz apenas

Por ver o dia raiando ou

A noite chegando ao léu

Ao som de Bono Vox

domingo, 14 de outubro de 2007

Ver(-)te

Ver-te, verte mais

Quentura solar

Ver-te, verve assim

Tontura demais

Lúcido pânico

Armado e fugaz

Por ver-te depois

Sob a luz do luar

Erradio é o caminho

Ao ver-te tão só

É luz e espinho

Na cama que é dó

Ou qualquer outra nota

Que a mente criar

Ver-te é alegria

Em um dia sem par

sábado, 13 de outubro de 2007

James Blunt

And so I sent some men to fight,
And one came back at dead of night,
said: "Have you seen my enemy?"
said: "he looked just like me"
So I set out to cut myself
And here I go

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Uma mulher apenas

Se não houvesse o desejo a lhe perturbar a face
Se não houvesse a brusca dor do querer
O impossível, o irremediável, até o insuportável
Talvez assim pudesse respirar copiosamente
Como quem chora o amor perdido por um triz
Se não houvesse a loucura talvez pudesse ousar
Ser doida varrida, louca de pedra, enfim,
Mas a loucura ditava suas regras de insanidade
De um jeito que a sociedade aceitava
Ela não. Se não houvesse a conivência ela seria
Mais que uma mulher louca uma mulher apenas
Se não houvesse o baralho para se jogar
Se as cartas estivessem marcadas e tudo fosse
Insípido como sabão de glicerina, talvez...
Se não houvesse o “ele” ai sim, quem sabe

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Batom

Pintou a boca com vontade
Olhou-se no espelhinho
Retirou o excesso com o
Fabuloso lenço de papel

Queria que ele a visse
Corada e louca e linda
Com o batom vermelho
A enfeitiçar seu olhar

Pintou a boca como poeta
Que diz coisas lindas em
Plena luz dos luares e se
Despe em reticências...

Queria que ele a visse
Vermelha mancha rouca
Com o batom abrindo a boca
Para abocanhar o mundo

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Desejo

O desejo rasga a carne branca

Pele sem estragos apenas pintinhas

Dessas que as pessoas temem agora

Fora as “belezinhas” nenhuma cicatriz

Apenas pele desejando pele

Para se roçar nela e se perder dela

Para rebentar o coração em suas

Passadas largas e afogueantes

Para reter um pouco o sal do outro

Trocar elementares sons abençoados

Que o atrito das peles permite

Que o atrito das peles impele

O desejo rasga a carne pálida

Quase translúcida de tanto desejar

sábado, 6 de outubro de 2007

O que há agora é esse silêncio inquietante. Durmo mal. Os sonhos me carregam para onde não quero. Tudo fica oblíquo, transversal. Acho que os tique taques dos relógios nunca vão cessar depois daquela abertura de Gritos e Sussurros. Mas hoje, nem sei onde quero chegar, se vou para algum lugar ainda que dentro de mim mesma. Estou pálida e silente, de um cansaço que aqueles olhos furta-cor talvez entendessem se pudessem me ver agora. Orbito o silêncio. Nem os gatos se movem, obrando rimas com suas patas apeluciadas. Penso em Guimarães Rosa e no amor. Penso em aulas que se foram e alunos que me buscam ainda. Quero o colorido da vida, mas às vezes acho que sou daltônica. Não faz mal, tudo se ajeita. Hoje tive ganas de gritar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Florbela Espanca - Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quirneras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...

Não 'stendas tuas asas para o longe..
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Vitor Ramil & Lenine

"Você pode ser rei no país do futebol
Pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
Você pode ser o mago vender livros de montão
Você pode ser uma socialite enriquecer vendendo pão

Mas um dia você vai servir alguém
Seja ao diabo ou seja a Deus
Um dia você vai servir alguém

(...)

Você pode desejar a cura com Lacan
Você pode procurar os serviços de um Xamã
Você pode ser pregador e chutar os santos do altar
Você pode ter um bom discurso
Você pode nem saber falar

Mas um dia você vai servir alguém...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Jayme Paviani

"Não é verdade que tudo passa,
tudo permanece de outro modo."

domingo, 30 de setembro de 2007

Anjo Guardião

Vi meu anjo guardião
Ele estava espiando
atrás da porta entreaberta
Vi que é alto e belo
mas calado e firme
Vi meu anjo guardião
e quis pedir-lhe colo,
luz, entendimento
Mas calado e firme
ele apenas espiou-me
parecendo cuidar de mim
Assim acreditei para
não chorar de tristeza
no meio da noite gelada

sábado, 29 de setembro de 2007

Fernando Pessoa

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Umberto Eco

"O autor deveria morrer depois de escrever. Para não perturbar o caminho do texto."
( in Pós-Escrito a O Nome da Rosa)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Como se uma rosa se abrisse

O dia cinza me disse amém.
Corri ao telefone, houve luz.
Houve aquela alegria
do inesperado mas sempre desejado.
O dia ganhou cor, então.
Como se uma rosa se abrisse
no jardim que não tenho
mas que vive na minha imaginação.
Que é o melhor de tudo, a imaginação.
Meu dia, de repente, se tornou
um dia especial ainda que chova e faça frio.
Graças a sua voz na manhã tardia.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

August Strindberg

"Tudo pode acontecer, tudo é possível e provável. O tempo e o espaço não existem. Sobre um ligeiro fundo de realidade, a imaginação tece sua teia e cria novos desenhos... novos destinos".

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Borges - Posse do Passado

"Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos.(...) Não há outros paraísos a não ser os paraísos perdidos."

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

É muito estranho estar sem o Hall. Hall é o meu PC. Escrevo em computador alheio e parece que estou sendo invasiva. Vamos lá, a verdade é que a gente se apega ao que é nosso de um modo! Eu queria o Hall!! Lá tenho tudo de que preciso. É como se ele fosse minha extensão, à la McLuhan mesmo. Então, este post é para dizer quê.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Italo Calvino

"Li num livro que a objetividade do pensamento pode ser expressa usando-se o verbo "pensar" na terceira pesssoa impessoal: em vez de dizer "eu penso", diz-se "pensa" como se diz "chove". Existe pensamento no universo, e é dessa constatação que sempre devemos partir.
Poderei algum dia dizer "hoje escreve" assim como se diz "hoje chove", "hoje venta"? Apenas quando me for natural utilizar o verbo "escrever" no impessoal poderei esperar que através de mim se exprima algo menos limitado que a individualidade de uma única pessoa".
Veja, o filete de sangue secou. Daí me ocorreu que estou cicatrizando. É dentro. Faça um esforço para ver. A dor parece que está se desagudizando. Eu ontem ouvi Good By My Lover e consegui não chorar. Até fiquei pensando na dor do James Blunt e não na minha, o que foi tremendamente comovente. O filete de sangue vai ficar guardado, eu sei. Como um prova do crime. Mas não houve um realmente. Houve aquela bobagem toda de entrega e tudo o mais que depois resulta nisso, uma ranhura e um corte profundo. A gente se apega aos discursos do coração e esquece que é preciso coragem triplicada para colocá-los em prática. O amor é isso diria Drummond (sempre tão lembrado por aqui) "hoje beija, amanhã não beija/Depois de amanhã é segunda-feira e ninguém sabe"...

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Carlos Drummond de Andrade

"Amar o perdido
deixa confundido
este coração."

domingo, 16 de setembro de 2007

Chico Buarque - Pedaço de Mim

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Mario Quintana

"Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios"

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Caio Fernando Abreu

"Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída da nossa solidão fatal. Mentira: compreendo, sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o que, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o eterno do perecível, loucos."

terça-feira, 11 de setembro de 2007

O céu que não protege

Misterioso céu que não protege
de azul desfeito em plumas
nuvens de aluguel que logo passam
e silentes buscam aconchego

Prego o olhar na tua pupila
Preciso da dor para saber amar?
Te vejo enredado em dúvidas
a buscar um céu que te proteja

Saiu agora o veredito: mulher apaixonada
Saíram folhas, galhos, até a raiz
tudo se desprendeu neste dia tonto
Feito da tua ausência, sem teu calor

Misterioso céu que não protege
enche de algodão meu pobre peito
com tuas soltas nuvens de aluguel
que eu, silente, quero o aconchego

Um Corpo que Cai

Hoje é dia de Um Corpo que Cai (Vertigo) na Semana Temática Alfred Hitchcock, na Sala de Cinema Ulisses Geremia, no Ordovás. Madeleine Ester (Kim Novak) é o objeto de desejo de Scottie (James Stewart) em uma trama cheia de mistérios e fantasmagorias. Ontem, a abertura com Janela Indiscreta lotou o cinema! Prova de que o mestre Hitch continua em plena forma artística.
As sessões são comentadas e iniciam às 19h30.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Ana Cristina Cesar

Flores Do Mais

Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Clarice Lispector

"Nós agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, a um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos amor. E então é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é mais necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões."

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

La cogida y la muerte, de García Lorca

Às cinco da tarde
Eram cinco em todos os relógios
Eram cinco nas sombras do entardecer
E o touro com seu coração alto
Às cinco da tarde
Quando o suor de neve foi chegando
Às cinco da tarde
Quando a praça se cobriu de lodo
Às cinco da tarde
A morte pôs ovos na ferida
Às cinco da tarde
Às cinco em ponto
Um féretro com rodas é sua cama
Às cinco da tarde
Ossos e flautas ressoam em seu ouvido
Às cinco da tarde
O touro já bufava em sua frente
Às cinco da tarde
O quarto se crispava de agonia
Às cinco da tarde
De longe vinha a gangrena
Às cinco da tarde
As feridas queimavam como sóis
Às cinco da tarde
As pessoas rompiam as janelas
Às cinco da tarde

Ah, que terríveis cinco da tarde!
Eram cinco em todos os relógios
Eram cinco nas sombras da tarde!

Todo o resto era morte e só morte.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Carlos Drummond de Andrade

(...) vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender....

sábado, 1 de setembro de 2007

Felicidade clandestina

O dia hoje foi um dia de se morrer nele, bem devagarinho, como quem adormece. Nada aconteceu neste dia. Mas o de ontem... o dia , quero dizer, foi de se rolar nele de felicidade. A felicidade clandestina de Clarice. Ontem foi dia de revelações. O que era incontido, afinal veio à luz. Certas coisas não têm jeito de a gente impedir, elas entram no nosso caminho e nos concedem uma certa alegria, um certo desvario que se opõe àquela quarta-feira sépia de que falei outro dia. É o contrário dela. É construção sendo erguida e nem o pó do cimento incomoda agora.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Sobre Ingmar Bergman

"O cinema não é um ofício. É uma arte. Cinema não é um trabalho de equipe. O diretor está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é se fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico". (Jean-Luc Godard, "Bergmanorama", Cahiers du cinéma, Julho - 1958).
Cinéfilos, em outubro teremos a Semana Temática Ingmar Bergman lá no Ordovás. Fiquem ligados!

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Cinema: um olhar diferenciado

O público que tem prestigiado as sessões comentadas das Semanas Temáticas do Ordovás está construindo um novo olhar para ver cinema, um olhar diferenciado. Todas as noites surgem perguntas interessantes, indagações que demonstram o interesse do espectador por não apenas se divertir mas interpretar a obra. Há também o silêncio reverencial, como aconteceu com Um Estranho no Ninho. Não havia mais o que ser dito. Se você ainda não conhece as Semanas Temáticas, está aí uma boa dica de programa. Hoje temos: Cabo do Medo, com Robert De Niro e amanhã Os Infiltrados, com Leonardo Di Caprio e Jack Nicholson. A direção é de Martin Scorsese.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Sarau Astral com Nivaldo Pereira

Hoje é dia de Sarau Astral no Zum Zum. O jornalista e produtor cultural Nivaldo Pereira falará sobre o signo de Virgem, numa abordagem que engloba o mítico e as características de famosos do signo. Jorge Luis Borges, Caio Fernando Abreu estão na lista, entre os escritores. Confira! Às 19h.

domingo, 26 de agosto de 2007

Taxi Driver vê sociopatia da urbe

Insano, comovente e impiedoso. Estes podem ser alguns dos adjetivos para um filme que não perde sua atualidade por tratar da alienação social e do universo sociopata. Taxi Driver incorpora em sua estética elementos do film noir com o uso da cor sendo estudado de um modo invulgar. Observe o vermelho, o verde e o amarelo em cena. Robert De Niro marcou sua carreira como o calado e violento Travis sob a direção de Martin Scorsese.
Programa imperdível para segunda ; às 19h30, no Ordovás. Sessão comentada.

Semana Scorsese no Ordovás



A partir de segunda até o dia 30 de agosto, a Sala Ulisses Geremia, no Ordovás, apresenta a Semana Temática Scorsese. Os filmes são os seguintes: Taxi Driver (1976); Os Bons Companheiros (1990); Cabo do Medo (1991) e Os Infiltrados (2006) que deu o Oscar de direção ao cineasta este ano. As sessões são comentadas por mim e iniciam às 19h30.

sábado, 25 de agosto de 2007

Água de Melissa

Tudo o que eu tenho aqui se resume a isso, água de Melissa e vontade de chorar. Ontem o caminhão levou a mudança. Hoje estou pintando a casa que, vazia, me põe em estado de vigília. Uma casa quieta assim é como um lugar tão carregado de recordações que a gente mal pode suportar. São os cheiros, o bolor dos dias, a rima das horas. Tudo que fez conexão conosco e agora é irrealidade, distração. As paredes vão tomando essa nova cor que escolhi. Cida diz que é uma cor enfadonha. E isso existe? Eu acho que ela está mais triste do que eu, a Cida. Sabe, estou pintando sem pressa, tanto que agora parei para apenas pensar.

Não sei. Eu não queria sair daqui, não depois de 12 anos, mas agora nós vamos para outra cidade e isso é apavorante. Eu já devia estar lá, com a mudança, mas eu evitei. Deixa que os outros arrumem tudo como quiserem, eu preciso ficar mais um pouco, olhar a casa, pintá-la como um último gesto de carinho. O pincel sobe e desce, a tinta às vezes escorre porque não sou profissional e me descuido um pouco enquanto penso. Ontem eu senti algo estranho no meio dessa solidão de casa vazia. Uma coisa que me estremeceu e eu tive um medo absurdo de ficar presa aqui. Imagine, as janelas todas abertas e eu...

Eu sei, eu sei. Estou sentindo outra vez. Ontem não foi o primeiro indício de que está voltando. No dia da mudança aconteceu de eu não conseguir sair do banheiro. Fiquei lá uma hora, encostada à porta, sem conseguir me mexer até que alguém bateu e pediu para entrar. Meus dedos mal conseguiam tocar na fechadura. Foi terrível. Andra me deu água de Melissa quando me viu agachada a um canto, abraçada a mim mesma. Ela não faz idéia do que se passa. E eu vou confessar, tive outro incidente. Devo chamar de quê? Surto?

Foi há alguns meses. Eu saí com a Cida, ela queria comprar um vestido. Depois fomos comer alguma coisa. Então ela me disse para ir para uma mesa e esperar lá porque havia muita gente, uma fila daquelas. Eu fiquei no único lugar disponível e me distraí olhando as pessoas, as faxineiras, a luz que entra pelo teto de vidro, balões pendurados, essas coisas e o tempo passou um pouco, não sei, dez ou quinze minutos, nem isso. Daí eu olhei para aquela gente toda e simplesmente não vi a Cida. Entende? Eu a procurei entre as pessoas, levantei e busquei com o meu olhar mais atento e nada. Daí subiu aquele calor que vem nessas horas e o terror que se segue a ele.

Eu tentei racionalizar que ela estava lá em algum lugar e logo ia aparecer, mas coisas horríveis me vinham à cabeça, tais como: ela foi embora e me deixou aqui ou ela está perdida ou foi raptada (!) ou... Tudo absolutamente ridículo, eu sei. Entrei em um estado de pavor em que não consigo sair do lugar, não movo um dedo, fico inerte dentro do horror. Eu quase não conseguia mais respirar quando ela apareceu com a bandeja, sorrindo. “Que fila, Mirna!”, disse sem suspeitar. Comi o lanche maquinalmente, tentando voltar ao estado “normal” sem que ela percebesse que eu saíra dele.

Eu não quero passar por tudo novamente. Medicações pesadas, sessões de análise, regressão, compreende? Por isso estou escondendo deles enquanto posso. Os sonhos também voltaram. Como flashes do imponderável eles me levam a um lugar recôndido de mim onde há uma espécie de dor sepultada. Nesse semestre houve essa instabilidade interna tão ameaçadora que eu cheguei a imaginar que desta vez não teria saída. Mas, você sabe, a gente pode se enganar quanto a isso. Eu queria que você soubesse porque se algo acontecer, se eu ficar lá nesse recôndido de mim, pelo menos alguém saberá para onde fui.

Digo isso porque tenho notado que eu me afasto cada vez mais das pessoas, Cida e Andra têm reclamado um pouco: “Mirna, você está tão alheia!”. Mas não é que eu fique devaneando, é que algo me impele ao centro. É, é como se esse lugar fosse o núcleo de mim mesma e eu preciso ir para lá porque é seguro. O medo fica fora. O pânico se dissolve quando eu fico dentro do que desconheço. Parece-se com uma mornidão como quando a gente estava dentro da mãe. Tenho pensando muito que esse lugar pode ser a minha perdição ou redenção. Você vai saber explicar isso aos outros se acontecer? Eu quero dizer, se eu me perder dentro desse centro invisível?

Vou terminar a pintura nesse meu ritmo vagaroso. Quando tenho sede tomo água de Melissa que é para ir me preparando para a noite, fico calma e consigo dormir melhor. Durmo no apartamento do Zeca por uns dias. Lembra dele? Tão gentil! Mas, sabe, a insônia tem me rondado, como sempre. Nessas horas eu peço pra ele ler alguma coisa pra mim e ele escolhe poemas do Drummond, do Mário Quintana ou algum salmo que escolho ao acaso. Mirna, confio em você que saberá o que fazer de mim quando eu estiver alheia e catatônica no meio do nada. Ajude-me então, você que me é.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Quarta-feira sépia

O dia se demoliu como um edifício em implosão. Fui toda para dentro, os olhos recebendo o cimento, o pó. Não é à toa que foi na quarta-feira. Pois se este dia foi feito para se chorar dele. E assim chorei. Não tive medo de me arregalar inteira em cima da dor e dizer a ela: olha, eu continuo aqui. Vai me doendo toda. Como quem rói. Vai me doendo a alma cansada. Não faz mal, o que o dia pedia era esse desavergonhado gesto de apenas ser. E isso, às vezes pede silêncio e lenços de papel.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

A Noiva Síria

Quarta-feira, às 19h30, no Ordovás, é dia de conhecer A Noiva Síria, uma co-produção Israel, França e Alemanha. O filme, dirigido por Eran Riklis, aborda questões relacionadas a preconceitos, intolerância (religiosa, familiar, política...). É uma oportunidade de conhecer um cinema diferenciado e com personagens cativantes. Sessão comentada.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

SerraCult

Tem novidade editorial no mercado jornalístico. Trata-se da revista SerraCult editada pela Serramidia sob direção de Rudiane Smialoski e edição do jornalista Delano Pieta. Nela você encontra diversidade inteligente sobre cultura.Esta é uma iniciativa que merece parabéns pela coragem e ousadia diante de uma certa apatia no que diz respeito à discussão sobre artes na Serra. A partir de setembro estarei colaborando com uma coluna sobre cinema. Visite o site!

domingo, 19 de agosto de 2007

São os rios - Jorge Luis Borges

Somos o tempo. Somos a fomosa
parábola de Heráclito o Obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio. Seu semblante
muda na água do espelho mutante,
no cristal que muda como o fogo.
Somos o vão rio prefixado,
rumo a seu mar. Pela sombra cercado.
Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha sua moeda.
E no entanto há algo que se queda
e no entanto há algo que se queixa.

sábado, 18 de agosto de 2007

Truman Capote

"As palavras sempre me salvaram da tristeza"

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Infinito fundo azul

Abrindo espaços
um lança-chamas
a chaminé que vai dar no oco
da-casa-da-lareira-do-dono-da-casa

Abrindo segmentos
riscando ruidosamente
- sem conseguir seguir -
um pensamento inteiro
uno eletronizado

vontade de fazer-se
ser um infinito fundo azul
um infinito fundo
(um quê?)

Através de nós
intermináveis rumores
insuportáveis trapaças
o eu contra o eu-tu
uma variação difícil
a inapetência, a completude
o não
atravessado
dosado
A criação do intolerável
daquilo quê.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Faltando um Pedaço - Djavan

"O amor é um grande laço
Um passo pr`uma armadilha
Um lobo correndo em círculo
Pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada
Com a fuga de uma ilha
Tanto engorda quanto mata
Feito desgosto de filha"

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Artigo sobre Caio F.


Se você visitar o site Caio F. (ver link ao lado) poderá ler o resultado da análise semiótica realizada sobre os contos do autor clicando em Pesquisa, na Página Mãe. Dentro, há um texto explicando algumas coisas e nele um link intitulado novamente de pesquisa , é a entrada para o artigo resultado final do trabalho que realizei sobre o escritor. Para os aficionados em Caio F., vale dizer que saíram edições recentes de seus livros incluindo uma coletânea dos seus melhores contos.

Guimarães Rosa

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da
gente é coragem.


Muitas correntes

É tempo de arrancar raízes
Sangrar a dor até purgar
Resignificar tudo
Abster-se
Enlouquecer
De uma loucura mansa
mas inobstante, cruel
É tempo de se dar um tempo
para encontrar uma brecha
um porto seguro,
uma nau que não afunde
um grito do fundo d`alma
É preciso render-se ao inevitável
porque o rio tem muitas correntes

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Maninha



Chico Buarque/1977
Gravada no disco Tom e Miúcha - 77

Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal
Feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções
Se lembra quando toda modinha
Falava de amor
Pois nunca mais cantei, ó maninha
Depois que ele chegou

Se lembra da jaqueira
A fruta no capim
O sonho que você contou pra mim
Os passos no porão
Lembra da assombração
E das almas com perfume de jasmim
Se lembra do jardim, ó maninha
Coberto de flor
Pois hoje só dá erva daninha
No chão que ele pisou

Se lembra do futuro
Que a gente combinou
Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar
Que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou
Mas não me deixe assim, tão sozinho
A me torturar
Que um dia ele vai embora, maninha
Pra nunca mais voltar

domingo, 12 de agosto de 2007

"Todo abismo é navegável
a barquinhos de papel"

Guimarães Rosa

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

"O amigo escuta todas as nossas coisas sem aquela cara que parece

dizer: E eu com isso?"

Mario Quintana

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Sobre ignorância e presunção

Ele se chama Paulo Coelho. E é o escritor que mais vende neste país de analfabetos. Ignorante e presunçoso, como qualquer tupiniquin que seja elevado ao "estrelato", tem a incapacidade de calar a boca para não dizer bobagens. Claro, ele se acha acima do bem do do mal. Leiam o que disse o "mago" sobre Ingmar Bergman esta semana na IstoÉ e tirem suas próprias conclusões:
"Na minha juventude, fui obrigado a gostar de Bergman. Se não gostasse, era marginalizado. Secretamente eu o detestava. Hoje posso dizer: embora o homem seja fascinante, seus filmes são chatísssimos"

Sobre cafés e cigarros

O cineasta Jim Jarmusch é conhecido por escolher temáticas inovadoras e até bizarras para seus filmes. Coffe and Cigarrettes é um primor de criatividade sobre um tema banal: cafés e cigarros. Isso, claro, é pura aparência. O diretor nos coloca em frente a uma deliciosa brincadeira na qual artistas como Alfred Molina, por exemplo, contracena com Steve Coogan sendo eles mesmos. Aliás, todos os atores representam a si mesmos e o resultado é hilariante. Diálogos malucos, idéias obssessivas, incomunicabilidade. Imagine um encontro entre Iggy Pop e Tom Waits! O que esperar dessa mistura? Graça e leveza, e um certo tom de paranóia. Os dois estão ótimos. E Cate Blanchett? Admirável como ela mesma e uma prima imaginária, que constrói com seu raro talento. Vale a pena assistir!!

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Talvez

Como quem descobre um mistério
mas não descobre o porquê
o descobre apenas como
sem o menor desvelamento

Talvez
como quem se antecipa
e perde o momento exato
o momento pleno de tudo
e arranca antes o sabor das coisas

Talvez
havendo um centro
uma importância
uma inadvertência
um consolo prévio

Talvez
enquanto algo se define
à beira do insuspeitado
com um sorriso mocho
tolo de ser tão o que já não pode ser

Mas talvez!
No lápis de cor das cores
no desenho rabiscado ao acaso
na latência das rimas
sonhos travestidos de luz, inacessíveis

Talvez,
mas pode ser que não,
talvez.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Ontem o cinema perdeu Bergman e hoje ficamos sabendo que também Michelangelo Antonioni se foi, aos 94 anos. O poeta da incomunicabilidade e da angústia, que retratou tão bem as neuroses e dificuldades do mundo moderno, fará falta com seu olhar arguto e tantas vezes implacável. Recomendo na revisão de sua obra uma releitura para Blow-up, de 1966, Zabriskie Point, 1970 e Profissão:Reporter, de 1974.

Zeca Baleiro

Para Lou Reed e Secos e Molhados. Do CD Vô Imbolá

Lenha/ Eu não sei dizer/ o que quer dizer/ o que vou dizer/ eu amo você/ mas não sei o que/ isso quer dizer/ eu não sei por que/ eu teimo em dizer/ que amo você/ se eu não sei dizer/ o que quer dizer/ o que eu vou dizer/ se eu digo pare/ você não repare/ no que possa acontecer/ se eu digo siga/ o que quer que eu diga/ você não vai entender/ mas se eu digo venha/ você traz a lenha/ pro meu fogo acender

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Quando se está triste, querendo viver o mais para dentro possível, a escolha certa é assistir um filme de Ingmar Bergman. Pensava nisso quando soube de sua morte, aos 89 anos. Vieram-me imagens de Gritos e Sussurros. Vermelho, intenso, brutal para as almas mais amenas. Em Bergman nada era fácil, mas sim dissimulado, intimista, profundo. É hora de rever O Sétimo Selo, Morangos Silvestres e tantos outros, como uma homenagem a um cineasta que captou na tela o olhar humano mais verdadeiro. Generoso, ele deixou-se levar pela intensidade dramática sem jamais ser piégas. Bergman é para iniciados. Iniciados na vida e na sua mais extenuante tortura: a do próprio viver. Para sua obra cabe a frase célebre de Clarice: "Gostar de estar vivo dói".

sexta-feira, 27 de julho de 2007

As Invasões Bárbaras no Ordovás

Nos anos 80, um filme de Denys Arcand deixou a todos boquiabertos. Tratava-se de O Declínio do Império Americano, cujas críticas ao sistema, em diálogos eloqüentes, marcaram uma época. As discussões traziam a então recente Queda do Muro de Berlim como uma passagem ao final do século ainda incipiente. Em 2003, após a derrocada das Torres Gêmeas, nos EUA, Arcand retoma seus personagens para mais uma catarse sobre o Estado, a Igreja e a família, entre outras instituições falidas. O resultado é o comovente As Invasões Bárbaras, cartaz da próxima quarta-feira no Ordovás, às 19h30, sobre o qual tecerei comentários antes da sessão.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Agende-se: Scorsese em Semana Temática

De 27 a 30 de agosto, na Sala Ulysses Geremia, no Ordovás, acontece a Semana Temática Scorsese com filmes que marcaram a carreira do diretor premiado com o Oscar este ano. Os filmes selecionados são: Taxi Driver, com Robert De Niro e Jodie Foster; Os Bons Companheiros, com Joe Pesci; Cabo do Medo, com Robert De Niro e Os Infiltrados, com Leonardo Di Caprio. Antes de cada filme farei um breve comentário sobre a obra. A coordenação da sala é de Uili Bergamin. As sessões iniciam às 19h30min.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Ser e Fazer

A pertinência audaciosa
roendo-me palavras
na tentativa de decifrar códigos
silêncios irrevelados
O estrabismo de gostar
aleijando o amor no ódio de amar
com violência
intromissão
insanidade
A exigência surda
de um canto de ave
na hora de esquecer, inevitável.
Vontade de cobrir os olhos
com mãos de carinho e felicidade
Por ser e por fazer, enfim.

sábado, 21 de julho de 2007

Como eu sonhei

"Como eu sonhei
Poder voar além do céu além do sol
Ser uma nave longe de qualquer farol
Ah, como eu sonhei
(...)
Já conheci
Tanta manhã sem esperança de ficar
Tanto amanhã que foi promessa de voltar
Juras de amor
Às vezes dor
Às vezes paz"

Bïa

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Hitch em Sarau Astral e Semana Temática

Segunda é dia de leoninos se reunirem no Zum Zum para o Sarau Astral com Nivaldo Pereira, às 19h. Na lista dos mais famosos temos o Mestre do Suspense, Alfred Hitchcock (foto ao lado) sobre quem tecerei alguns comentários. E, por falar em Hitch, teremos uma Semana Temática sobre ele no Ordovás em setembro. Aguardem!

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Para dentro

Esboço de um carinho
a mão que quer
o corpo que hesita
no abismo do querer
O tempo sufoca
a vontade amortece
porque há olhos a ver
que, curiosos, anoitecem
Ela brinca com o anel
num faz de conta qualquer
Ele olha para a tela
na trama a cena cruel
Ela olha para dentro
longe do que ninguém vê

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Semana do Oscar no Ordovás

A partir de segunda.feira, dia 16, inicia a Semana Temática Oscar de Melhor Filme, na sala de cinema do Ordovás. As sessões serão comentadas por mim antes da exibição de cada obra. Os filmes escolhidos pelo Coordenador da sala, Uili Bergamin, são os seguintes: Os Imperdoáveis (1992), Rain Man (1988), Um Estranho no Ninho (1975) e Perdidos na Noite (1969). Horário: 20h.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Lya Luft

"Vai brotar agora mesmo a palavra exata,
a chave da minha idéia,
a moldura de minha alma desencontrada.
Não sei a forma das palavras
nem o ritmo dos sons, mas o que tenho a dizer
quer nascer de mim e se retorce."

terça-feira, 10 de julho de 2007

Peter Greenaway

"Eu acredito que os pintores Caravaggio, Velásquez e Rembrandt foram os inventores do cinema, três séculos antes dos irmãos Lumière", diz o cineasta Peter Greenaway. "Está ali a dramaticidade e o jogo de luz e sombra que fizeram a grandeza do cinema narrativo nos anos 30 e 40. E é esse aspecto sensorial que o espectador absorve, muito mais do que a estrutura romanesca."

domingo, 1 de julho de 2007

Os riscos são tantos
nesse tracejado louco
A vida paredeando o
insuportável
rebenta,
fere,
dissipa amenidades.
Os riscos riscam
possibilidades
sonhos
- Tantos matizes!-
Os riscos
revelam!
São tantos,
são tontos?
São belos os riscos
irrefreáveis
com a vida empurrando
o gado
com o gado derrubando
as cercas.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Por um segundo

"Por um segundo num sorriso teu
Fez-se festa infinita em minha vida
E a estrada longa inteira
Num giro da mente eu vi
Por um segundo em um beijo teu
Tive todo o universo em meu corpo
E eu fui dono das estrelas
Guardei no meu peito pra dois"

(Gonzaguinha)

quinta-feira, 28 de junho de 2007

" Olha pra você e se ama
é o que está certo".
Você já leu Clarice Lispector?
Você já amou por seus olhos introjetados?
No amor em si
No amor para si?
Olha para você e se ama
é o que está certo.
Mas olhe para mim!
Você já pensou no além de si
Na significação do ato sem nexo
Na coisa feita a reboque
a ferro
a mãos
a dois
a um
a menos que um?
Você já teve medo
nojo
raiva
sono
Indecisão fatal?
Olha para você e para mim
Ama a você e a mim
É o que deveria estar mais certo
Você já leu Clarice Lispector?
É o que está certo....

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Intermezzo

Era para amassar com os dedos. Era como inventar mundos, de grotesca e assombrosa criatividade. Era para isso, então. Amassava e moldava. As figuras tornavam-se sólidas, eram a concretização de algo que pairava no obscuro da mente. Talvez não tão obscuro assim. A mão ia encaminhando coisas coisas coisas. Como se tecesse. Como um artesão. Como um desfiador dos emaranhados dos sonhos. Cabia tudo nas mãos. Os dedos descobriam a melhor forma, o melhor ângulo. Os dedos como experimentação do imaginável. O barro transformado. Escapando àquilo previamente esperado. Às vezes havia a surpresa de um contorno inexplicável, ininteligível. Mas as formas tomavam suas formas como se estivessem há muito tempo moldadas e bastasse, com dedos cautelosos, tirá-las de lá, onde estavam. Retirá-las com zelo e curiosidade, porque apesar de já concebidas não eram conhecidas. Não eram, ainda, o que viriam a ser, embora no cerne já o fossem.

Trecho de Arremedo, conto de O Imprevisto

terça-feira, 26 de junho de 2007

Bem querer à espera

Meu bem querer
te espero sempre e tanto
que minha alma desvanece
Quero a luz dos teus olhos
na luz dos meus olhos
que o nosso brilho
é o que aquece
Esqueço a dor e a solidão
Invento riso, paz, ilusão
Vem meu bem querer que
te quero sempre e tanto
no silêncio próprio da espera

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Comme une vague

"Tout ce qui se voit n`est pas
Pareil à ce qu`on verra dans une seconde
Tout renait toujours des cendres
Du monde
À quoi bon tenter d`écrire
Renetir
Sur le sable la trace
Elle arrive et tout s`efface
Et l`on recommence
Comme une vague qui va"

(Lulu Santos/ Nelson Motta. Versão: Bïa)

De volta para casa...

Alguns dias fora de casa nos ensinam o valor do comprometimento amoroso com antigos amigos e também fazem com que valorizemos os novos ainda mais. Como disse Ely M. Becker, "ser amigo é entender o silêncio, a ternura, o mistério". Penso sempre nas palavras de Renato Russo, de que "é preciso amar a pessoas como se não houvesse amanhã, porque na verdade não há."

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Aos leitores!

Meus amigos, estarei fora alguns dias. Vou para Santa Maria (da boca do monte!) (RS), visitar meus familiares, entre eles um irmão apaixonado por Literatura Espanhola (ele é parecido com o Chico Buarque jovem!). Vou trocar figurinhas e matar a saudade da minha terra natal.
Beijos a todos e até segunda!

Sarau Astral no Zum Zum

Para agendar: na próxima segunda-feira, dia 25, no Zum Zum do Rodrigo Lopes, tem Sarau Astral com Nivaldo Pereira, às 19h. Música, literatura e astrologia convergem em um clima muito especial. Vale conferir as características e simbolismos que regem os nativos do signo de Câncer, enquanto se saboreia um bom vinho ou café.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Volver a los 17 - Violeta Parra

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber 
ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
nos aleja dulcemente de rencores y violencias
solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.
 

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Bïa - Coeur Vagabond

Nunca uma noite de domingo foi tão linda e proveitosa. Graças a Leandro, Mirella e Luizi, pude apreciar a bela e tocante Bïa. Fomos para Farroupilha, sim, como num road movie comovente, rimos e nos divertimos, cantamos e uivamos com Bïa no aconchegante auditório do Sesc. Um final de domingo levado às últimas conseqüências: a da alegria incontida. A cantora é brasileira mas sempre viveu pelo mundo. Suas canções podem ser em francês, espanhol, português, italiano. Há versões belíssimas, como João e Maria, de Chico Buarque. Você pode descobrir mais sobre Bïa Krieger no endereço: www.biamusik.com

domingo, 17 de junho de 2007

Paula e Bebeto

"pena que pena que coisa bonita, diga
qual a palavra que nunca foi dita, diga
qualquer maneira de amor vale aquela
qualquer maneira de amor vale amar
qualquer maneira de amor vale a pena
qualquer maneira de amor valerá"

(Caetano Veloso - Milton Nascimento)

No Zarabatana...

Como é bom ver gente alegre reunida. Dançando, bebendo, se amando de alguma forma. Uma gafieira em Caxias do Sul é algo completamente inusitado. Parece postiço, mas não é. Aconchegante, agradável e....romântico. Esse espaço é aberto uma vez por mês no Zarabatana (no Ordovás), soube por acaso. E isso é o que acontece quando se está vivendo: o acaso, a sincronicidade. A vida se desvela e tudo pode acontecer. Um simples encontro com amigos pode tornar-se o melhor de todos os acasos, ainda mais em uma gafieira.

sábado, 16 de junho de 2007

A palavra

A palavra é a sobra de mim
que sopra no teu encalço
mas não é a forma única
porque te alcanço
Não é o que encerra
o que resume, o que perpetua

A palavra é apenas a sobra de mim
que te abrange no limiar do que somos
Eu, sou a palavra que te sopro
Eu, sou a palavra que me sobra

Não existo eu (?)
Existem velocidades inimagináveis
dentro, na minha órbita
dentro, na tua órbita
Dentro da nossa órbita é quando
minha palavra e tua palavra
se completam no silêncio
(que sobra de tudo o mais)

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Anthony "genius" Hopkins


Um ator completo, intenso, quase assustador. Assim é Hopkins, mas isso não é nenhuma novidade. O que acontece é que em Um Crime de Mestre (Fracture), cartaz no GNC, ele se supera e deixa o espectador quase alucinado. O filme é feito com inteligência e adrenalina. Parece finalizar em várias ocasiões para então retomar-se em força ainda maior. Lembra o essencial cinema hitchcokiano, com suas reviravoltas e personagens inesquecíveis. O embate no tribunal, entre o promotor e o potencial assassino é simplesmente magnífico. É pena que, entre Piratas do Caribe e Homem Aranha, o filme acabou relegado a uma única sesssão, às 21h40. E, pior, temo que saia de cartaz nesta sexta. Portanto, se você ama cinema de qualidade, invista seu tempo ainda hoje nesta obra exemplar.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Curtas os curtas!

A turma que curte cinema não pode deixar de assistir a Mostra de Curtas Franceses que continua na Sala Ulysses Geremia, no Ordovás (Rua Luiz Antunes, 312). A arte do curta metragem exige uma capacidade aguçada para captar e narrar uma história em poucos minutos. Quem quer fazer cinema, primeiro faça uma imersão nos curtas. Nesta quarta, às 20h serão exibidos filmes do Festival Clermont-Ferrand, de 2006. No sábado, dia 16, temos Estranhamente Curtas; às 18h e às 20h30, Curtas do Mundo. No domingo, dia 17, às18h, Clermont-Ferrand e às 20h30, Curtas de Recreio. Na próxima quarta, dia 20, às 20h é a vez de Elas. A programação da sala é obra de Uili Bergamin.

Gilberto Gil

"Quando a gente tá contente
nem pensar que está contente
nem pensar que está contente
a gente quer
nem pensar a gente quer
a gente quer, a gente quer
a gente quer é viver"

terça-feira, 12 de junho de 2007

A Casa do Lago

Tem dias em que a gente tem aquela vontade de se apaixonar, não tem? De viver os batimentos cardíacos acelerados e as pernas tremendo. Foi pensando nisso, e já que hoje é Dia dos Namorados, que resolvi recomendar uma filme romântico que assisti ontem. Chama-se A Casa do Lago, com Keanu Reaves e Sandra Bullock. Lindas cartas são trocadas pelo casal que tem um problema insólito: ele vive em 2004 e ela em 2006. Desvende este mistério!

domingo, 10 de junho de 2007

Clarice Lispector


"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

sábado, 9 de junho de 2007

H. D. Thoreau

Olha só o que Thoreau disse lá no século 19: "Ando, logo penso veio antes do penso logo existo". Fiquei refletindo sobre a genialidade do escritor norte-americano que muito antes de se falar em buraco de ozônio e coisas do gênero, já fazia apologia pela natureza e por uma vida saudável. Durante um período de sua vida ele construiu uma cabana perto de um lago na qual foi morar com o intuito de provar que se poderia viver sem dinheiro.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Curtas Franceses

A sala de Cinema Uysses Geremia, no Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho (Rua Luiz Antunes, 312 - Bairro Panazzolo) apresenta neste final de semana a mostra Viagens em Curtas, com obras francesas selecionadas. No sábado, dia 9, às 18h, será exibido Curtas de Recreio e às 20h30, Elas. No domingo, dia 10, às 18h, Curtas do Mundo e às 20h30, Estranhamente Curtas. Na quarta-feira, dia 13, às 20h, é a vez de Clermont-Ferrand 2006. Informações: centrodecultura@caxias.rs.gov.br e fone 3228-1013.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

O Céu de Suely

Ontem fui assistir, finalmente, O Céu de Suely. Sabia que o filme era bom, que ganhou muitos prêmios, mas isso eram apenas informações parciais. O tema, a estética, o enredo, tudo em Suely é surpreendente, porque simples e direto, como o próprio universo nordestino no qual se passa a história. Ficaram para mim o olhar fundo de Hermila/Suely, os planos fechados, os closes implacáveis revelando uma atriz comprometida, brilhante. Em cartaz no Ordovás.

O Céu de Suely - Brasil, 2006, 100 min. Direção: Karim Aïnouz. Elenco: Hermila Guedes, Maria Menezes, Georgina Castro, Zezita Matos, João Miguel, Mateus Alves. Site Oficial: www.oceudesuely.com.br

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Esquecer/Lembrar

Esqueço e lembro
vou adormecendo assim
neste esquecer/lembrar
Sei que sonho,
que te sonho, às vezes
e queria sonhar sempre
se sempre existe

Esqueço e lembro
e te quero menos
ao lembrar
já que te quero sempre
quando esqueço

E quando eu esquecer
pra sempre
então é porque
já te quero demais
Vou acordando assim
neste esquecer/lembrar

Nabokov

"Poesia se lê com a espinha"

terça-feira, 5 de junho de 2007

Fernando Pessoa

"Temos todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.


Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar"

domingo, 3 de junho de 2007

Inverno

Andar pelas ruas frias e deixar-se acender pelo sol ameno. Tomar um capuccino e pensar em Paris. Ouvir Wilco e lembrar de John Lennon. Pensar que o inverno da Serra também pode ser uma benção quando se encontra amigos lá no Arco da Velha ou no Zum Zum, do Rodrigo Lopes, um espaço café + revistas + arte. Carpe Diem, mais do que nunca. Viver pode fazer sentido, isso eu não sabia.

sábado, 2 de junho de 2007

Maiakovsky

"A morte não é difícil.
Difícil é a vida e seu ofício"

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Sociedade da Decepção

O filósofo francês Gilles Lipovetsky aponta em sua nova tese que a política e as relações pessoais, entre outros aspectos, são as maiores frustrações da era hipermoderna. A isso ele denomina de "Sociedade da Decepção", na qual nunca alcançamos plenamente os nossos desejos. O consumo cultural decepciona, segundo Lipovetsky, mas a "decepção mais forte, mais intensa, a mais cruel é a que você tem com outras pessoas". O que dá frustração, diz ele, é a individualização do mundo. Para reflexão...

terça-feira, 29 de maio de 2007

Sarau Astral com Nivaldo Pereira



Guarde na sua agenda: dia 25 de Junho tem mais um Sarau Astral comandado por Nivaldo Pereira, no Bar Zum Zum, que fica em frente à antiga Estação Férrea. O tema será o signo de Câncer e as atividades iniciam às 19h (seja pontual!). Ontem foi a vez de Gêmeos com uma apresentação dinâmica que incluiu imagens de DVD de Chico Buarque e Maria Bethânia; leitura de poemas de Fernando Pessoa e canções ao vivo, todas de Chico, o mais geminiano de todos os geminianos. O espaço Zum Zum é encantador e enquanto assiste as apresentações você pode saborear um bom vinho ou um chocolate quente.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Nivaldo Pereira

Seja você ligado ou não em signos do Zodíaco, confira a apresentação especial que o escritor, jornalista e produtor cultural, Nivaldo Pereira, faz hoje às 19h, no Bar Zum Zum, em frente à antiga Estação Férrea. O signo lembrado é Gêmeos, haverá inserções em telão e música ao vivo (canções de Chico Buarque, um geminiano típico).

sábado, 19 de maio de 2007

Italo Calvino

Luiz Carlos Erbes, jornalista, está lendo um livro de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno, que ele considera, no mínimo, muito louco.
"A leitura de Se um viajante numa noite de inverno é uma experiência insólita. Logo no início, você sente um certo estranhamento e chega a pensar: Esse é mesmo o livro de Ítalo Calvino ou é um livro sobre o livro do escritor italiano? A medida que a leitura avança, você entra em um mundo incerto, kafkiano. É uma jornada, que você não sabe como terminará, com personagens com nuances incomuns.
É uma leitura enriquecedora, uma experiência que vale a pena."