sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Prece

Eu tenho a ilusão do silêncio, se é que você me entende. Sentei no banco da capela vazia e pensei isso, que não há um lugar mais silencioso do que esse. Talvez os cemitérios, você contestaria. Eu tive um amigo que visitava esses lugares ao entardecer e até fazia fotos em preto e branco. Havia aquelas imagens dos anjos com suas asas abertas, algumas quebradas. Asas de concreto corroídas. Mas eu não quero isso, algo bizarro, eu só quero o silêncio. Entrar nele completamente. Como um surdo. Queria ficar surda do silêncio de Beethoven. O banco de madeira é um pouco rústico. Essa capela é tão pequena! Foi feita para se chorar nela. Um amor chorou neste lugar e toda vez que eu entro aqui esse pesar se revela no silêncio. Você já sentiu isso? Que um lugar guarde um sentimento profundo e dorido assim por toda a eternidade? Nessa capela feita de pedras, em seu espaço exíguo eu sinto o cheiro do tempo. O silêncio só é entrecortado pelo canto de algum pássaro lá fora. Dentro só há a quietude se debatendo entre as quatro paredes. Alguém acendeu uma vela cuja chama tremula levemente. Eu olho em volta e não há muito o que ver além dos poucos bancos e algumas imagens pequenas. O crucifixo, um Jesus menino, uma Nossa Senhora. A luz que entra é pouca embora faça sol lá fora. O tempo escoa, mas eu não tenho mais pressa de nada, não nessa tarde de fevereiro. As pessoas estão de ressaca ou se preparam para mais uma noite de folia. Eu não tenho vontade de alegria, se é que você me entende. Eu busco o silêncio para bem longe dos tamborins.Eu estou sozinha com a minha aflição que não é maior ou menor do que a de muitos outros seres humanos. A diferença é que esta é a minha aflição. Conto os dias que me separam do que desconheço e que virá como um momento de paz no meio dessa tristeza. Você não pode me ouvir realmente, eu sei disso. Eu falo para mim mesma porque acho que Deus está tão ocupado... Eu só queria esse silêncio me preenchendo, curando as minhas feridas. Porque, você sabe, estou sofrendo. Nem mais nem menos. Na medida do que me foi reservado, só isso. Daqui a pouco tenho que voltar. Hoje até que está calmo. Nenhuma emergência. Ninguém gritou demais ou entrou em coma. Por enquanto o dia está indo bem. Mas, você sabe, eu me refugio aqui porque preciso esquecer os esgares, os gemidos, as dores alheias. Entre injeções e ataduras, eu preciso de um pouco desse silêncio quase perfeito como o de uma cova vazia. Eu sei que é loucura, mas... vou embora. Não sei. Eu venho aqui todos os dias em busca desse silêncio que é quase como um celibato forçado. É que depois que você partiu naquela manhã de setembro, bem, eu nunca mais me apaixonei. Ontem eu lembrei que há quatro anos você não está aqui e, no entanto, eu não consigo amar ninguém e isso, você me desculpe, mas isso deve estar errado. Todos dizem que está. Eu sei que sim, mas não consigo.Eu até quero, mas não acontece, você compreende? Só que é assim. Eu decidi que vou embora. Não venho mais a essa capela. Vou buscar esse silêncio que me fascina em outro lugar que eu ainda não sei qual é. Depois eu aviso pra mãe porque se eu falar agora ela vai se acabar em desespero. Então, depois eu vou para esse lugar que ainda não sei qual é. Precisa ter silêncio lá. Precisa ter liberdade e luz. E se anjos existirem por certo não possuem asas de concreto, não é? Nesse caso eu quero ouvir o farfalhar dessas asas e sentir o cheiro da vida como nunca senti. Que o tempo se escoe, já não me importa. Só quero o silêncio, como um surdo, o silêncio de onde eu possa morrer de mim mesma quando eu quiser e isso não vai doer, vai?

12 comentários:

Beto Canales disse...

muito legal...

Letícia disse...

O Beto diz que é muito legal. Eu acho que legal é passear perto de uma praia. Seu texto é perfeito por ser escrito com palavras tão simples e que nos falam tão alto. Esse silêncio de preencher almas, de querer ficar surdo para se ficar ainda mais solitário e sentir a dose certa de dor que nos é deixada. Eu li seu texto e senti a mesma sensação que sentia quando frequentava a capela do colégio onde estudei. Eu buscava o silêncio. Não em santos ou em Deus. Era o meu silêncio. Este que você deixou tão alto e nítido em sua prece.

É isso.

Beijos, Bida.

ira disse...

eu choro agora. não tenho vergonha disso. estou no meu silêncio, eu e ele. choro porque este texto é muito lindo e tocou profundamente minha alma. obrigado, biba. bjim

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Quem fala "queria ficar surda do silêncio de Beethoven", não precisa falar mais nada. É como se a solidão da sua capela, como se a quietude da sua capela, ecoasse pelos onze cantos quânticos do Universo ecos intermináveis da 9ª Sinfonia. O problema do silêncio, entretanto, é que até pensar em silêncio gera expectativa de som. Caso contrário, desconheceríamos a existência do silêncio. A realidade é que apenas sileciaremos com a morte, a qual, pelo que até então acredito, irá me deixar finalmente em paz, distante das angústias que tanto correm na bile dos meus olhos. Por conta dessa sua sinceridade adjetivada, por conta dessa sua intimidade resguardada, motivada mais pela arte do que pela dor, é que admiro seu texto. Falar de dor-de-corno qualqur um fala. Mas quando eu digo para uns amigos que nenhuma música brasileira, seja samba, MPB ou sertaneja fala de dor-de-corno, mas sim de saudades do que nunca viu, uma espécie de Eldorado mítico que fez o Cortez dizimar os Incas, eles riem da minha cara e perguntam de lambuja: cara, tu fumaste o quê hoje? Entretanto as coisas são assim mesmo. Os signos do futuro estão presentes nos signos do presente. E os signos do presente são apenas simulacros do passado que tentamos construir. Por isso, quando assisto a um filme, por exemplo, busco a estrutura por detrás de cada fotograma, por detrás de cada tomada de câmera ou mesmo adereços do cenário. Quem mais me proporciona isso atualmente é o Bergman e o Lynch, isso sem falar na genialidade do Kusturica. Também gosto do Glauber Rocha, mas acho que ele exagerou demais nessa coisa Tropicália, acabando mais panfletário que verdadeiro. E não que eu seja contra o panfleto: muito pelo contrário, uma das razões da Revolução Francesa foram os panfletos do Voltaire. Mas o fato é que se a arte serve a algum fim que não ela mesma, ainda que isso seja uma utopia que carrego comigo desde que li Madame Bovary do Flaubert, deixa de ser arte e se torna propaganda. Foi isso que o Warhol falou em suas obras mas quase ninguém entendeu. E essa é uma das razões da minha aversão ao que chamam de arte conceitual: se a obra precisa de um texto para ser explicada, por qual motivo ela existe? Nós existimos sem motivos ou textos algum. Ao contrário, construímos textos a partir da nossa própria contemplação e da contemplação dos outros. E arte que precisa de muitos subterfúgios para ser arte de modo algum será arte, ainda que isso soe puritano. Como seu texto se basta, digo que ele é arte. Como seu texto é uma ressaca de perguntas, de uma saudade do que nunca viu, digo que ele é puro sentimento e luz na vastidão de uma capela negra na qual apenas a luz da lua penetra. À parte isso, vamos montar um blog sobre cinema? A Valeska já topou e me disse que você é professora de cinema, considerando que meu maior sonho, apesar de ser professor, advogado, escritor, poeta, compositor, ator e pretenso radialista, é fazer cinema. Portanto, o que acha da proposta? Eu sou viciado em cinema. Cinéfilo de tatuagem, nem de carteirinha. Deixo meu e-mail do MSN para contato, visto que não podemos ser apenas mais um blog de orelhas de DVDs na net: eduardo7frizzo@hotmail.com. Um beijo, minha poeta.

Danúbio e ainda assim tenho vivido, disse...

Biba, que vontade de chorar. Me permita.

Biba disse...

Oi Beto, muito legal é tão vago... mas eu aceito porque você finalmente me visitou novamente.
Beijo
Carpe Diem!!!

Biba disse...

Letícia, você compreendeu com profundidade o que se passa no texto, o que quero dizer e até nem digo explicitamente. É um silêncio que só quem quer preencher a alma é capaz de entender.Temos uma mesma matriz.
Beijo grande
Carpe Diem!!!

Biba disse...

Ah, Ira, querido suas lágrimas são límpidas e puras, como as de alguém que acaba de nascer. É assim que eu sinto.
Bjim
Carpe Diem!!!

Biba disse...

Du, li novamente seu longo e amável texto. Não sei por onde começar, só sei que gostei de suas palavras e da leitura que fez da Prece. Obrigada. Quanto ao blog de cinema, claro que não poder mais um daqueles lá. Tem que ser algo bem elaborado, com uma linha,não acha? Você é também ator? Eu fui. Bons tempos...
Beijo,
Carpe Diem!!!

Biba disse...

Claro, Danúbio, querido do coração. Que sua alma se exponha nessa Prece.
Beijo beijo
Carpe Diem!!!

Caco disse...

Esse texto é uma oração.
beijo

Biba disse...

CACO, querido, assim tem parecido aos que o lêem e eu nem tive essa intenção, embora sempre exista a intenção do autor naquilo que faz. Desta vez foi inconsciente, pode acreditar.
Bjus,
Carpe Diem!!!