quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Lembranças dela

Nesse dia branco, o sol se escondeu. Ela sabia que nesses dias a gente fica mais para dentro. Sentou-se no chão da sala e abriu a caixinha que havia encontrado outro dia, no armário. Guardada há anos, ela continha recordações. Talvez porque o dia fosse assim branco, assim parado, ela resolveu remexer no passado. A cada foto que retirava da caixinha surgiam lembranças únicas, nem sempre boas, nem sempre ruins. Por vezes brancas como o dia. Viu aquela foto um tanto artística, em preto e branco, em que estavam lado a lado olhando para uma mesma direção. Pareciam tão absortos. Então ela soube: até ali eles ainda se amavam. Quando encontrou a foto dele, também P&B, à máquina de escrever, com um cinzeiro do lado e muita fumaça envolvendo o ambiente, viu o quanto ele era sozinho. Uma foto noir para alguém misterioso como ele. Cheio de segredos que ela nunca soube ou ousou desvendar. Olhou as fotos uma a uma e evitou qualquer lágrima. Queria apenas ter certeza. Aquele já não fazia parte de sua vida, embora guardasse os registros de tantos anos juntos. Por não saber se desvencilhar do passado foi que colocou a caixinha no mesmo lugar de antes. Precisava das lembranças acumuladas em papel. Fragmentos de uma vida. Apenas isso. Contudo jurou que um dia, não tão branco quanto este, irá dar sumiço no passado e aí sim, será completamente livre como nunca imaginou.

10 comentários:

Duda Lima disse...

Oiiii Biba! Pois é estive viajando e voltei a pouco. MAs com mais inspiração hehe
Amei esse texto! As recoradções que guardamos na caixinha da vida as vezes nos chamam atençao para olharmos elas outra vez.
E se desfazer delas as vezs também é bom, porque marca um novo começo de vida.
Beijinhosss^^
Suas postagens estão cada vez mais bonitas!=)

Adri Antunes disse...

oiiii, Bi, lembrei de vc hj, mto! fui fazer uma matéria no aeroclube sobre o prazer de voar, e lembrei mto do filme "aviador", daquele romantismo todo, do idealismo, da magia que o voar exerce sobre o homem, e não pude deixar de pensar que escrever, buscar novos ares, ficar felizes com o (re)encontro com velhos/novos amigos, faz de nós seres, por essência, voadores!
bjuusss
ah, carne de cobra e tatu, ehe, é melhor do que engolir sapos, coisa que volta e meia a gente faz....

bjuuu

Letícia disse...

Já reparou como a fumaça de cigarro traz um ar de solidão? Acho que sim, já que me veio essa imagem quando li seu texto. E retratos também. Olhar o passado e reunir tudo numa caixa com medo de que algo nos fuja. Muito belo.

Bjs. =)

glória disse...

Linhas de uma tessitura rara das palavras. A mémória nunca é uma tela em branco. São matizes de lembranças, algumas amareladas por falta de cores fortes do presente, em estado de latência. criatura, teu texto é tão belo que me deixei levar por outras caixas de lembranças. bjs

Biba disse...

Oi Duda, que saudade menina. Mas viajar é muito importante. Que bom que tem gostado dos meus textos, fico feliz!!
Bjus
Carpe Diem!!!

Biba disse...

Adri, somos seres voadores, eu concordo. E que bonito isso, saber voar escrevendo. Amei. Quanto a engolir sapos, é verdade, vez em quando engolimos cada um que ... haja!
Beijos garotinha!
Carpe Diem!!!

Biba disse...

Sim, Leticia, já reparei na fumaça de cigarro que traz esse ar de solidão. Isso eu queria passar no texto. Você percebeu. Gosto dos seus comentários. Obrigada.
Beijos
Carpe Diem!!!

Biba disse...

Glória! Gostou assim do texto? Que bom, que bom! Fiquei tri feliz. Adorei seu comentário.
Beijos
Carpe Diem!!!

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Olá moça. Sempre quando lembro de caixas, lembro do David Lynch. E sempre quando lembro do David Lynch, lembro de caixas. Será que na Caixa Azul do Cidade dos Sonhos realmente haviam apenas aqueles velhinhos sorridentes em meio a uma Hollywood dantesca? Meu medo é abrir a caixa que comigo guardo e a partir dele me descobrir velho, decrépito e sem o menos ímpeto sexual, reprimido pelos remédios da vida. Seu texto é como uma pílula do Matrix: ou você aceita ou você não aceita. Mais vale aceitar e descobrir quem somos. Obrigado por existir. Um beijo, Eduardo.

Biba disse...

Eduardo, querido, a caixa de Lynch me dá medo. Não vejo só aqueles velhinhos não. Mas a caixa de lembranças é mais branda talvez, pelo menos num dia branco ("se branco ele for"). Gracias por vir sempre aqui depois de me descobrir.
Beijo
Carpe Diem!!!