domingo, 15 de março de 2009



Não posso voltar atrás. O que não foi dito se perdeu. O que foi dito, não se sabe. A impermanência de tudo é muito chocante. E palavras, palavras desnudam o ar mas o que fica delas é aquela poeirinha frágil na contraluz. Já experimentou soprá-la suavemente? A sujeirinha gira em espirais e tudo é caos. Não posso voltar atrás e desfazer o desfeito. O que foi dito é apenas dissonância. Os ouvidos se retesam para as coisas mais ousadas. Alguns se ferem com isso. A ousadia, quero dizer. E fico aqui pensando nele que era para chegar agora que estou madura e me sinto liberta de mim mesma. No entanto, não posso voltar atrás e querê-lo para mim porque a natureza nos desviou assim, num revés. Eu que esperava pelo parto, as dores e o gozo da cria nascida, tenho que reivindicar nova chance. Não posso voltar atrás porque independe do meu corpo, agora inerte.

18 comentários:

fred disse...

Biba,

Gostei do texto que Lembrou-me um poema meu:

Poema perdido

a sílaba silenciosa
desprendeu-se da garganta
mas o tempo havia passado,
agora não me adianta

o tempo havia passado
quando a palavra foi solta
agora não me adianta
porque o tempo não volta

agora não me adianta
que a frase nasça exata
o tempo dobrou a curva
& o poema não é acrobata

o tempo dobrou a curva
do meu poema perdido
nada há que o redima
deixo-o aqui interrompido.

Beijo

glória disse...

Biba, essas dores de um tempo que nào foi fertilizado são tão marcadamente femininas! esses fios que conduzem para longe a possibilidade do encontro causam rasuras nos afetos que nos conduzem, eu sei! ainda bem que o tempo reverte seus ritos e na dobra de outras esquinas tudo pode acontecer! bjs

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Eis um selo para você no meu blog. Grande beijo!

Letícia disse...

O tempo engole tudo, Biba. Tem gente que acha isso meio deprê. Dizer que o passado levou algumas chances e não há mais o que fazer. Mas é um fato. A gente aprende a lidar com o tempo perdido ou aprende. Não tem outra. O filho que não veio, o amor da vida que já não é mais amor, um livro que não foi escrito. Acho que a gente precisa é saber inovar. Ou escrever pra deixar a poeira sair e sentir que existe futuro melhor.

Beijos, Biba.

marcéllia avilla disse...

Olá...profe!!!
Só vou na UCS amanhã e ai levarei o currículo. Será q terá algum problema? Qualquer coisa te envio pelo seu e-mail!!
Abraços.

Tainá Facó disse...

Que catinho lindo e cheio de poesia!

Muito lindo isso aqui. Voltarei mais e mais vezes, posso? :)

MEU BEIJO!

Beto Canales disse...

Muito legal.

Liene disse...

Biba,
Cheguei até aqui, gostei e, parei!
A vida é feita de conquistas e perdas. Perder às vezes é necessário, mesmo que não nos agrade.
Um abraço carinhoso!

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

O Pessoa fala que a única morte é a morte daquilo que nem chegamos a fazer. Quanto aos mortos, não podemos deixar de lado a hipótese de que eles estejam vivos em outra parte. Entretanto, esses pequenos passos que deixamos de dar, esses pequenos atos que deixamos de apresentar ao mundo e àqueles que estão no mundo, é que configuram a verdadeira morte, já que estão para além do que foi feito - ou seja: não são e nunca poderão ser, já que as oportunidades passaram e nós deixamos elas a ver navios, muito certamente porque, naquele então, enxergávamos navios tão ou mais interessantes que elas. Vejo que se por um lado seu escrito fala dessa ausência angustiante do não-feito, por outro lado fala dessa presença nauseante do que foi feito. E não que eu queira chamar Camus e Sartre para a conversa, traçando uma trama existencialista por sobre suas palavras. Mas é que seu poema-prosa (ou sua prosa-poema) me remete a esses momentos perfeitamente distintos dentro do que ao meu ver consiste na proposta do seu texto, sendo que ambos estão insertos em sua escrita. No entanto, creio que a dor do que foi feito, mas não feito como deveria ser feito, é muito maior do que a dor do que não foi feito (já que quanto a esta, ou aceitamos ou enlouquecemos). Daí essa ausência de uma dor/prazer que poderia fazer algo nascer, seja esse algo um poema ou alguém, isto no sentido biológico da palavra. Claro que estou apenas especulando por sobre as vestes das suas letras, como sempre fiz com os blogs que acompanho, o que, de uns tempos pra cá, tem me sido um exercício muito agradável (além de extremamente prazeroso). Mas se foi isso que senti ao ler suas palavras, creio que isso é que deve ficar registrado neste meu breve comentário acerca da permanência tanto do feito quanto do não-feito, sendo que ambos nos incutem esse sorriso em colchete no rosto, como se carregássemos uma máscara de eternidade que nos fará permanentemente perenes às sensações mil que a vida nos proporciona. E hoje recém me dei por conta que jamais parei pra pensar em quantas vezes mudo de humor com o decorrer do dia. Quem sabe isso diga mais do que todas as palavras acima. Fica bem, Biba querida. Um beijo deste falador inconstante que fala e fala e fala para tentar achar na própria fala algum sentido para o mundo (sentido este que esteja para além do significado e que, figurando o mundo com suas redes, figure a própria vida). Até.

Biba disse...

Oi Fred, seu poema é lindo. Obrigada por enviá-lo para mim.
Beijos,
Biba

Biba disse...

Ainda bem, Glorinha, que tudo pode acontecer nas dobras de outras esquinas.
Beijo,
Carpe Diem!!!

Biba disse...

Du, gracias pelo selo!!!
Carpe Diem!!!

Biba disse...

Marcélia, querida, recebemos o seu currículo. Beijos.
Carpe Diem!!

Biba disse...

Tainá, volte sempre e sempre mais. Ficarei muito feliz com sua visita!
Beijos,
Carpe Diem!!!

Biba disse...

Beto, agradeço sua visita.
Beijo grande,
Carpe Diem!!

Biba disse...

Liene, grande abraço e volte sempre. Vou esperar suas visitas!!
Beijos,
Carpe Diem!!

Biba disse...

Du, querido: o feito, o não-feito, o desfeito. Tudo isso me atrapalha mas me faz ganhar mais como Ser. Digo que atrapalha porque fico por vezes enredada em uma teia de quereres que não se dissipa tão facilmente assim.
Amei sua leitura do meu texto. Sua sensibilidade é muito vivaz, gosto da tessitura de suas palavras.
Beijo grande
Carpe Diem!!

Biba disse...

Letícia, cada palavra sua me tocou bem fundo. Você percebeu com clareza o meu escrito. O filho que não veio, o livro que não foi escrito, você disse. Obrigada por estar por perto!
Beijo imenso
Carpe Diem!!!