quinta-feira, 30 de abril de 2009

Veja bem, com teus olhos pardos que eu queria verdes como os de minha avó. Veja, estou despida e nua e desnudada. Veja, o que te impede de olhar para o meu corpo que agora se oferece sem vaguidão? Olha!! Meu grito é imprevisível e você fica atrapalhado no silêncio de olhar mas não ver. A cicatriz é imensa. Foi por aqui que eles entraram. Abriram meu corpo na altura do tronco e foram até quase a garganta. Não sei o que aí fizeram. Mas dizem que assim me salvaram. Então olhe agora que já sou quase apenas ossos. Essa cicatriz vai ser tua lembrança olhos pardos. De tudo que de mim há de ficar em tua boca será o gosto amargo deste dia em que te mostro minha dor sufocada. Não há cura, eles disseram. Mas todos foram unânimes que era preciso abrir e assim o fizeram com seus instrumentos desinfetados. Está bem, não olhe mais. Vá para casa e perdoe meu desalinho, minha nudez medonha, minha morte iminente.

4 comentários:

Letícia disse...

Suas palavras me fizeram lembrar o dia em que meu filho nasceu. Dor de parto e acabei em cirurgia mesmo. Sei que não está falando sobre nascimento, mas está falando em cicatriz. Filhos deixam cicatrizes. Amores também. Mas esta dor que há no texto é a dor da morte. Muitos temas existem em um só texto, Biba.

Beijos e Carpe Diem. =)

Biba disse...

Muitos temas em um só texto. Isso é do que mais gosto quando escrevo ou leio. Essas nuances, esses signos todos a nos dizer algo além. Acho que as pessoas se assustaram com esse texto.

Beijo e Carpe Diem!!

Camila disse...

acho que as pessoas não se assustaram exatamente, Biba. texto assim desnuda e transmuta a gente também.

Biba disse...

Oi camila, que bom que pensou assim.

grande beijo,
Carpe Diem!!