domingo, 2 de novembro de 2008

Ensaio sobre a Cegueira


Medo. Insegurança. Raiva. Tudo nos move e comove em Blindness (Ensaio sobre a Cegueira), dirigido por Fernando Meirelles a partir da obra de Saramago. A pipoca foi devorada antes do filme, porque eu já sabia que durante seria indigesto. Ensaio machuca, dói. Somos nós também cegos? De uma cegueira leitosa que nutre a tela com delicadeza mordaz? Ou somos como a personagem de Moore e enxergamos o quanto o ser humano se degrada em situações de risco, em momentos de desesperança? Ver é o verbo mais correto. Ver vai além do enxergar as coisas, está para além delas. A obra de Meirelles é no mínimo um soco no estômago. Há espectadores que abandonam a sessão na metade. Quem fica, ganha. Pois se não há poesia na cegueira, há um olhar sobre a natureza humana muito intenso. Um olhar que não poupa a deficiência. Um olhar que nos procura o tempo todo dizendo: está vendo isso? E agora? E isso? E isso? Saímos da sala com um gosto amargo na boca.

12 comentários:

Adri Antunes disse...

...e com a pergunta, ver mesmo é melhor do que nao ver? quando o filme terminou eu fiquei quieta, sem mover um músculo sequer, vendo as pessoas saírem, rindo, resmungando, dando graças pelo filme ter terminado, falando do que iriam fazer agora, se comer, se ir embora e no meio do burburinho eu fiquei tentando ver se alguém via o mesmo que eu....e encontrei um olhar a sorrir! ehe, boa segunda! nunca estamos sós!
bjussss

Daia disse...

Fiquei curiosa para ver o filme.
Beijos prof!

Biba disse...

...é, quando o filme terminou e depois em todo o trajeto para casa não houve uma palavra trocada, somente a música de Joan Baez. Mas sei, nunca estamos sós...
Boa segunda!
Bjus
Carpe Diem!

Biba disse...

Daia, veja o filme com a mente bem aberta.
Bjuss
Boa segunda e Carpe Diem!

Anônimo disse...

Nao assiti ao filme, mas o teu comentário me lembrou aquele filme "dançando no escuro" com a Bjork, que fala sobre ser cego, e ver...

ira disse...

oi Biba, amei suas impressões sobre o "Ensaio".
No livro tudo é muito comovente: nunca esqueci o "cão das lágrimas", ele bebe as lágrimas da mulher. Irei ver o filme!
bjo e paz

Biba disse...

Anônimo, o filme com a Bjork também tem um peso incrível. É um dos melhores que já assisti. Enxergar, ver, não-ver, ser enganado...

Biba disse...

O livro, o filme... sempre faremos essa comparação. E, inevitavelmente, penso que se Saramago gostou é porque Meirelles pegou o essencial da obra.
Bju
Carpe Diem!

Anônimo disse...

Estou curioso para ver o filme, mas o tempo e eu estamos meio brigados. Tento conversar com ele, mas ele corre rápido demais.
Ah, obrigado pelo post no SerraCult.
Um beijo.
Delano.

Biba disse...

Oi Delano!! Quanto tempo, enh? Agradeço a visita e quando puder assista o filme porque vale mesmo.
Bju
Carpe Diem!!!

Beto Canales disse...

Creio que falamos a mesma coisa:

Sexta-feira pouco antes de Começar a Terminar, peça de e com o excelente Antônio Abujamra, texto baseado na obra de Samuel Beckett no Theatro São Pedro, pelo Porto Alegre em Cena (um festival de teatro que ocorre por aqui pela 15ª vez) uma amiga disse que não comentaria nada sobre a peça sem antes saber o que havíamos achado e não deu mais detalhes. Pronto. A expectatica tomou conta de mim. Até então, eu estava tranqüilo sem problema algum. Faltavam poucas horas para o início e depois disso foi um devaneio só. Esta pessoa, muito erudita e assídua freqüentadora de salas e eventos culturais,

provocou aquilo que chamo de tensão gratuita, uma coisa
poderosa e com conseqüências inimagináveis. Do que ela falava? Seria bom o espetáculo? Muito bom? O melhor de todos? Ou ruim? Muito Ruim? O pior de todos? Jogariam ovos podres na platéia? Mulheres nuas besuntadas com manteiga light se esfregariam nos homens atônitos? Atores nús e bem dotados pulariam por sobre as poltronas? Tudo que a minha imaginação
permitisse seria possível nestes momentos de angústia, já que ela se calou em seu conhecimento. Ela tinha a resposta pra tudo mas prefiriu deixar o desvario tomar conta de mim,

permitindo todas as possibilidades, levando-me as raias do inimaginável,
esquecendo Beckett e Abujamra. Maldade, pura maldade com um curioso, uma verdadeira desumanidade.
Pois Ensaio sobre a cegueira, com a maravilhosa, linda, magnífica, simpática, iluminada e todos os adjetivos possíveis Juliane Moore, chama a atenção por uma espera. Pelo menos a minha atenção. Claro que o filme todo cinza-azulado se sobressai também por inúmeras qualidades, inclusive pela bela adaptação da obra de Saramago, mas, em síntese, quando os primeiros cegos são trancafiados em um antigo manicômio em quarentena, eles ficam a espera. Não se sabe do que, nem eles mesmos sabem, mas ficam esperando algo. Talvez a cura, a redenção, a adaptação, a comida, enfim, tudo. Eles esperam e enquanto isso acontece o filme. Os conflitos humanos são sintetizados de maneira brilhante em terra de cego, onde só Juliane enxerga. Deixe-se de lado uma certa inverossimilhança que existe já na obra original e tem-se

um ótimo filme. Nesta espera (desculpem o trocadilho) os fatos acontecem sem esperar: atropelam o público e as personagens sem dó, causando um enorme mau-estar que chega a angustiar, a mesma sensação que senti quando não sabia o que me esperava na noite se sexta-feira.
Normalmente gosto de filmes que me incitam a não comentar cinema, caso do Ensaio, e falar do que eles propõem, conscientemente ou não. Creio que este mero detalhe passe desabercebido do grande público, mas a espera neste caso é cruel e certamente é uma das coisas que incomoda. O final, não "a la Paulo Coelho", é quase feliz. Todos devem voltar a enxergar em meio a um mundo caótico, exceto um já cego que fica arrasado e Juliane, que sequer deixou de ver e não fica muito feliz também. O ser humano é terrível. É quase desumano. E esperar também.
No Começando a terminar a questão era temporal. No folder falava em 1h05 min. Na primeira noite, visto pela amiga, durou meia hora; na segunda (a que vi) uma hora que pareceram cinco minutos somente. E não tinha mulher besuntada. Mas tinha mulher nua.
Compensou minha tensão gratuita.

Biba disse...

beto, gostei muiiiito do seu comment. Sim, a espera, ela é terrível, sempre. Mas também nos impulsiona e enleva. Gosto dos minutos em que fico à espera no cinema, por exemplo. Em Ensaio, temos a espera do antes e do durante, bem como você falou sobre a peça.
Bju
volte sempre!
Carpe Diem!!!