quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

No aquário

Pálida, desligou o ventilador. Calor de mil graus. Chuva fina lá fora e os homens trabalhando na reconstrução do pátio do estacionamento. Espiou pela janela, entre as cortinas cor de cenoura. Hábito antigo esse de espiar pelas cortinas. Desde criança. Desde sempre, porque a mãe cutucava o lá fora assim, entre persianas. Viu o rosto no espelho: pálida. Devia ser a medicação. Ou, vai saber. Tanto calor assim baixa a pressão. Toma um gole de licor de menta. Gosta de sentir o sabor entre os lábios. Passa a língua de leve, sem pressão, só para sentir mais. O gosto se espalha e a boca toda é menta refrescante. Ele podia se perder no meu beijo licorado. Ele bem que podia voltar e ver que o estacionamento está sendo restaurado e há ruídos e batidas de pás no chão. Ele bem que podia entender que o que fiz foi o certo. Ele... No entanto, arrependesse. Ele se foi com o livro do Poe, a carteira vazia e uma mala desarrumada. Pegou o cachorro também. Foi assim. Isso acontece. Será? A palidez deve ser de saudade dele, tão intensa. Velocidade da luz e estão juntos no aquário, olhando-se como olham os peixes. Fecha os olhos e preenche o escuro com a imagem dele, peixe no aquário peixe no aquário para sempre.

2 comentários:

ira brito disse...

conto lindo como os áquarios. com gosto de menta, gosto de vida, vontade de liberdade, vontade do que foi... bjim, minha amiga, sua alma é linda.
ira

Biba disse...

Ira, obrigada pelos elogios, fico muito feliz mesmo. Sua alma é que linda meu amigo.
Bjim,
Carpe Diem!!