quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Grão

Via no ar da sala a poeira transparente que abarca os dias. Não essa que se posta sobre as coisas. Olhava para o indizível como quem faz uma trança em cabelos de criança. Ontem ela chorou o choro dos inocentes. Daqueles que se culpam por tudo quando a vida é assim mesmo, cheia de truques e pegadinhas. Seu choro-lamento inundou o quarto de uma dor infinita. A gata, olhos semicerrados, fingia não ver que ela se contorcia na dor. Hoje, olhando a poeira dos dias dançando no ar, ela tem os os olhos inchados. Pensa que amanhã vai ser outro dia, como quis Chico Buarque, como querem todas as pessoas, mesmo as que não sabem cantar. Ela não sabe cantar. Vive sem voz, sempre pigarreando. A paisagem na neblina, pensa, enquanto com a mão delicada ousa tocar o ar e vê o movimento suave das partículas sob a luz tênue que entra pela janela. Fecha os olhos, pensa nele. Nos olhos, sempre. Porque é por eles que sabemos tudo. Palavras são somente palavras, filosofava. Cada grão de poeira invisível lhe dava vontade de ser também um. Suspirou aflita. Ela era um tanto aflita. Fingiu segurar o pó com os dedos em pinça. Fingiu que podia tudo o que quisesse, inclusive pegar o inaudito. Soprou a poeira imaginária e recostou-se sobre o sofá. Uma lágrima fez a curva do nariz e outra ficou empoçada no olho esquerdo. Assim é que o dia de amanhã seria melhor que o de hoje, bastava esperar flutuando como um granulo de poeira.

2 comentários:

Letícia disse...

Acho triste um texto em um blog sem ser comentado. Parece que não foi lido.

Sabe que me vi no seu texto? Muitas vezes isso me ocorre. E falou em Chico Buarque, falou em mim.

Beijos. =)

Biba disse...

Também acho triste post sem comentário. Dá essa sensação de não lido, de que pouco importa. Noto que meus textos mais densos não são comentados. E é isso, Chico Buarque sempre!!

Beijo e afeto!
Carpe Diem!!