sábado, 25 de julho de 2009

Luz de fogo diante do mundo

Estava pálida de insatisfação. Olhou as pessoas atravessando as ruas e teve vontade de seguir a turba. Eram sim, uma turba. Falavam alto e replicavam palavras, como se houvesse um eco no ar daquela esquina. Quase acreditou nisso, quando percebeu uma fala tão dentro de seu ouvido que teve um tremor. Olhou para o lado. Ninguém. Ficou parada, olhando coisa alguma, enquanto os ecos aumentavam:"o preço... salário... contingências da vida... vacina". Por um momento sentiu-se o anjo de Asas do Desejo. Pensou que ouvia não as vozes mas os pensamentos alheios. Sentiu certa emoção erradia. Logo percebeu o vento, o sol, as mantas de lã, os cachecóis, luvas, chapéus coloridos. Fazia frio e ela parada na esquina. Vez ou outra alguém esbarrava nela que piscava os olhos como em câmera lenta. Quando percebeu que além das vozes alheias também havia vozes de dentro, pensou na loucura. Deu um passo sem sentido. Não sabia para onde ir. De repente, esquecera quem era. Seu nome. Seu destino. Como quem tateia no escuro levou as mãos ao rosto e o apalpou de leve. Tinha olhos, nariz, boca. Era um ser humano. Mas o pensamento só foi até aí porque as vozes ficaram mais altas e exacerbadas. "Vigília... cuidado com eles... não se mostre". A palidez de insatisfação cedera lugar a um estado-pânico e os olhos antes dispersivos e lentos tornaram-se luz de fogo diante do mundo. Precisava esconder-se. Precisava fugir. Rápido! Quando atravessou a rua ainda ouviu um grito, que não entendeu se era de dentro ou de fora: "Cuidado!". Ouviu o ruído, mas não entendeu. Deitada na rua, não viu as pessoas que a circundaram dizendo coisas como: "Ela estava estranha... atravessou sem olhar... o motorista não teve culpa..."

4 comentários:

Letícia disse...

Não entendo o motivo que leva certos leitores a se assustarem com textos assim, bem pensados, bem feitos, bem escritos. Eu tenho pra mim que a gente, talvez, cause medo, Biba. Porque não é de hoje que a mulher luta pra ter voz. Nossos direitos são bonitos no papel, mas quando a gente abre a boca, a história é diferente. E ninguém aguenta talento feminino que seja intelectual. Muitos preferem as dançarinas e cantoras.

Ainda bem que você existe digo eu. Eu que leio seu blog no meio da noite e entendo suas criaturas. Entendo e sei como é que se faz para encontrar suas vozes.

Beijos, escritora.

glória disse...

Essa ausência antecipada e interrompida bem debaixo das "asas do desejo". Nós sabemos!! belo! bj

Biba disse...

Letícia, também não entendo, mas você viu? Os internautas desaparecem quando escrevo assim. Talvez até passem por aqui mas não deixam recados.

Beijos
Carpe Diem!!

Biba disse...

Glorinha, quanto tempo. Obrigada por aparecer por aqui.

Beijos,
Carpe Diem!!