quarta-feira, 17 de setembro de 2008

...e a respiração contínua do mundo

é aquilo que ouvimos

e chamamos de silêncio

Clarice Lispector

sábado, 13 de setembro de 2008

Essência minha

Sábado, sol, laranja, bergamota.
As cores entre vivas e vibrantes
abraçam o dia frio, abençoado.
Sinto a falta deles, mas sei agora
que não vou morrer por isso,
não ainda, tem a hora certa pela
qual aguardo, hoje, sem ansiedade.
Tem o tempo rolando como as
pedras que não criam limo e é
com ele que vou alçando vôos.
Da essência vem aquilo em que
acredito e prezo, nela me comprazo
depois de tantos desentendimentos
Dela me abasteço, essência minha
que basta aos olhos e ao coração
sempre um pouco cansado e só.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Bagdad e As Horas

Houve um silêncio respeitoso. Silêncio de reflexão. Meus alunos de Cinema surpreendem. Há uma semana foi "Bagdad Café" e nessa "As Horas". Não é de se esperar que filmes intimistas sosseguem a meninada às 8h da manhã. Mas houve, em "As Horas", esse silêncio entre melancólico e pensativo. Eles vão pesquisar sobre Virginia Woolf, descobrir seu universo. Só isso já vale a pena. Sem contar que vão analisar o filme dos pontos de vista técnico, estético e psicológico. "Bagdad" teve ótimo resultado. Espero muito de "As Horas". Aquele silêncio... para mim vai ficar sempre marcado como as batidas descompassadas do meu coração naquele momento.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Setembro

Acabou que hoje é segunda-feira, o que é inevitável depois do domingo. E, acontece que estamos em setembro. É setembro no mundo inteiro? Deve ser. Sempre gostei deste mês, desde criança. Por causa do cheiro, das flores e do sol razinho. O que esperar da Primavera quando se tem aquecimento global e tudo está corroído e sujo? Apenas isso: as flores. O cheiro delas. O encanto do sol rasteiro. Não, não é primavera no mundo todo, nem poderia. Além do mais eu a estou cantando antes da hora. É que setembro e primavera combinam tão bem! É tempo de reler Clarice, Virginia. De assistir Bagdad Café e entender o valor da amizade. É tempo de se ter um pouco mais de tempo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

O violino

Violino. Sim, era um som de violino que eu ouvia e me colocava livre, à disposição daquela imaterialidade sonora. Não sei de onde vinha a música, pois então já era música. E comecei a pensar nas lágrimas de outro dia e achei tudo tão banal, apenas porque aquele violino me transportava para um estado de puro sentir, uma primeiridade. Era manhã, e as manhãs são manhosas, têm uma certa lentidão em querer amanhecer, virar dia outra vez. Fiquei quieta, ouvindo os acordes, deixando tudo transparecer, esvanecer, seduzida pelo som. Assim devia ser a vida, sempre. Um violino no alto da manhã deixando-nos estupefatos. Não descobri de onde vinha a música, nem precisava. Tem coisas que não se diz e tem coisas que são só para sentir, assim, meio que sonolentos, à beira de mais um dia indefinido.

domingo, 24 de agosto de 2008

Solidão

Há um perigo em cada esquina. Há uma torsão dentro de nós, como atletas descuidados que somos. Vadiamos noites afora querendo algo como uma verdade absoluta que não vem não vem não tem. A cada dia nos esforçamos mais e mais, porém sempre alguém se vai, alguém se distrai da vida e escolhe outros caminhos. E ficamos olhando, perplexos, espiando a dor alheia como se a nossa própria não bastasse. "Senti teu coração perfeito batendo à toa e isso dói"... Hoje é um dia de promessas não cumpridas. Há esquinas demais à nossa espera. Melhor bater em alguma porta, daquelas com aldrava, fortes, de madeira maciça.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Um pontapé, um sorriso, um beijo...

Acontecem coisas o tempo todo, você sabe. Pode ser um pontapé que nos dão, assim metaforicamente falando. Pode ser um sorriso descomprometido. Como pode ser um beijo. Um beijo que não se espera mas que sempre se quis. Dá para entender? Tem coisas boas demais acontecendo ao nosso redor e então aquela dorzinha de cabeça parece uma tolice. Bom mesmo é poder olhar o outro e ver. Ah, o Outro, como queria Lacan. Tenho a impressão que às vezes você não me entende direito ou é só um modo de recolhimento? Um pontapé, um sorriso, um beijo. Tudo intercepta o eixo das possibilidades, sempre tão raras. A vida entra de viés e deixa o ar rarefeito.

domingo, 10 de agosto de 2008

O presente

Eu ganhei um presente... Não, não é assim: eu ganhei o presente de alguém muito especial. Não vou falar do momento da acolhida, da recepção. Nem vou falar o que é o presente. Mas vou dar uma pista para os mais atentos:

"Se eu pensasse claramente, diria que luto sozinha nesta escuridão, numa profunda escuridão...E que só eu posso saber. Somente eu posso compreender minha condição. Você vive com uma ameaça; você diz que vive na iminência de minha extinção. Eu vivo nela também."

Virginia Woolf para seu marido , Leonard

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Tarde

Hoje acordei tarde, muito tarde. Tarde para a vida? Não sei, pensei naqueles versos: "Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu". É o pesadelo de hoje, do agora-já. Falo do imediato porque tenho a esperança de uma virada. O dia é longo. Há muito a acontecer. A renite incomoda. Os gatos se ausentam quando me sentem assim, distraída e triste. Mas, como disse, tudo pode mudar. Eu bem posso encontrar um amigo com quem conversar. Eu bem posso comer um doce bem saboroso. Eu bem posso ficar quietinha ouvindo o vento lá fora. Que hoje está ventando por demais...

sábado, 2 de agosto de 2008

Agosto parido

Não tenho medo do escuro,
Mas deixe as luzes acesas agora,
O que foi escondido é o que se escondeu,
E o que foi prometido, ninguem prometeu
(Renato Russo)


Agosto nasce com gosto de sangue de animal recém-parido. Lembranças se esvaem como a placenta. Tímida, reconheço o caminho a seguir. A estrada sempre longe, mas que está somente a alguns passos. Tudo que me rodeia gira devagar, como devagar eu procuro luz e entendimento. Os dias não têm sido fáceis, porque nada é fácil, esta é a verdade. A mãe lambe o sangue e a placenta da cria. Eles não sabem o que é futuro, o que é passado, o que é crescer. São tão abençoados na ignorância de apenas ser. Eu afundo os dedos nos cabelos querendo gritar, sim, meu grito acordaria a vizinhança inteira. Melhor deixar as luzes acesas...

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Jorge Drexler

12 Segundos de Oscuridad

Gira el haz de luz

para que se vea desde alta mar.
Yo buscaba el rumbo de regreso
sin quererlo encontrar.

Pie detrás de pie
iba tras el pulso de claridad
la noche cerrada, apenas se abría,
se volvía a cerrar.

Un faro quieto nada sería
guía, mientras no deje de girar
no es la luz lo que importa en verdad
son los 12 segundos de oscuridad.

Para que se vea desde alta mar...
De poco le sirve al navegante
que no sepa esperar.

Pie detrás de pie
no hay otra manera de caminar
la noche del Cabo
revelada en un inmenso radar.

Un faro para, sólo de día,
guía, mientras no deje de girar
no es la luz lo que importa en verdad
son los 12 segundos de oscuridad.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Truman Capote

"As palavras sempre me salvaram da tristeza".

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O dia de Clarissa

Clarissa estremeceu. Nunca tivera olhos de cigana, oblíguos e dissimulados. Mas, talvez para ele... Clarissa sentiu também um calor subir pelo estômago e engasgar ali, na garganta. De onde devia sair um "oi tudo bem", "olá, como vai?" Pensou se estava bem de vermelho, com o cabelo solto à espreita do vento suave. Ele a viu, finalmente. "Me perdoe a pressa", ela quis dizer antes mesmo de se cumprimentarem. Era só uma espécie de medo-susto. Tanto tempo. Ele ainda ia sentir o seu perfume como antes? Ele a olhava como sempre. Ela, então, entendeu: aquela pressa era um ardor, um coração selvagem ali batendo dizendo: "eu quero". Sendo que esse querer é o indizível agora e para sempre. Porque não mais aqueles braços. Não mais aqueles lábios. Clarissa entendia tudo em um segundo quando o sol iluminou o rosto dele e ela percebeu que o seu cabelo havia sido cortado de pouco. A face sedenta recebeu um beijo, dois, mais. Clarissa queria mais, ela é sempre tímida e arrebatada ao mesmo tempo, nunca entendendo bem esses enlaces. Afinal, se despediram. Ela atravessou a rua e não olhou para trás a fim de não saber do medo-susto de, por acaso, vê-lo indo embora, assim, sem mais aquela.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Tantas Palavras - Chico Buarque

2ª versão*
Tantas palavras
Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
Tantas palavras
Que ela gostava
E repetia
Só por gostar

Não tinham tradução
Mas combinavam bem
Toda sessão ela virava uma atriz
"Give me a kiss, darling"
"Play it again"

Trocamos confissões, sons
No cinema, dublando as paixões
Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou c'est fini
C'est fini

Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz

Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui
Inquieta, mais do que nunca. Olho o relógio, refaço as horas. Não conto para trás. Espero uma brecha no tempo e aí sim, fico muda de felicidade. Espero. Sorrio. Olho em volta e vejo que as coisas são mesmo incoerentes e que não há sapato para todos. Sigo o dia que traz um sol clarinho, desbotado. Sigo o meu coração apressado. Tudo se faz como uma pequena e doce aventura, com sabor de vida, assim, bem na ponta da língua.

domingo, 13 de julho de 2008

Teu Nome Mais Secreto

Só eu sei teu nome mais secreto

Só eu penetro em tua noite escura
Cavo e extraio estrelas nuas
De tuas constelações cruas

Abre–te Sésamo! – brado ladrão de Bagdá

Só meu sangue sabe tua seiva e senha
E irriga as margens cegas
De tuas elétricas ribeiras,
Sendas de tuas grutas ignotas

Não sei, não sei mais nada.
Só sei que canto de sede dos teus lábios
Não sei, não sei mais nada.

Adriana Calcanhotto

Composição: Waly Salomão

sábado, 12 de julho de 2008

Hoje foi um dia bacana. De sacudir a poeira e comer tolices jurando que é a última vez. Os gatos miando pela casa, um sol rasteirinho, breve, breve. E eu com saudade de alguma coisa ainda não descoberta. Com vontade de abrir o coração e falar falar falar. Hoje foi um dia lilás, você entende? Lilás. Enquanto isso, tudo passa...