quarta-feira, 3 de junho de 2009

Voo 447

Começou dizendo assim; "Alguma coisa aconteceu comigo". Era alguma coisa tão estranha que não sabia como falar dela. Olhou para os lados como a pedir socorro. Fechou os olhos. Colocou as duas mãos enluvadas na testa e chorou. Um choro manso, descabido. Ninguém ao redor. Tudo que nele havia agora era espanto e estranheza. "Alguma coisa aconteceu comigo que não consigo entender". E, entender é o que sempre sobra de nossos desdobramentos mentais. Os sentimentais também pedem entendimento. Era o caso dele. Não. Não queria falar sobre o voo. Só queria anoitecer assim, com aqueles olhos inchados de chorar e experimentar a dor pela primeira vez sem ela. Não descobriria tão cedo que o luto pede tempo e a ausência é sempre maior.

16 comentários:

Letícia disse...

Muita gente não gosta de falar nesses assuntos porque soa como sensacionalismo. Parece pecado falar de uma tragédia quando se morre mais de fome do que em acidentes de avião. E nas guerras também se morre mais. No entanto, o luto é o mesmo. A morte, para quem já se sentiu a presença dela, nem que tenha sido de longe, sabe o quanto ela pesa. Nos transforma. Bonita a sua forma de enfocar algo que, infelizmente, aconteceu. A gente nunca espera que algo assim ocorra com a gente, mas, às vezes, acontece.

Um luto Literário.

Beijos, Biba.

Caco disse...

Nossa, que delicada leitura de tu fez de alguém que vive uma dor acontecida de repente.

Em 2007, quando cobri a tragédia da Tam, me senti um inescrupuloso ao abordar as famílias e pedir para falar com elas. Depois percebi que, embora muitos preferem o resguardo silêncio, outros gostam de falar. Parece que dói menos assim, quando se divide.

Beijos
CACO

Biba disse...

Letícia, a morte pesa, e muito. Sei da dor da perda e sempre me remeto a ela quando acontecem coisas assim. Imaginei esse homem perdido em seus sentimentos sem entender ainda que perdeu quem mais amava.

Beijo grande e afeto
Carpe Diem!!!

Biba disse...

CACO, não sei explicar, o texto veio e eu sabia que era por causa do voo 447. Então, escrevi.

Beijo e saudade
Carpe Diem!

Fábio disse...

Biba,traduziste bem esse sentimento que tomou conta do país.É incrivel como essas tragédias aéreas nos comovem tanto.É um bom tema para discorrermos.Por que nos sensibilizamos tanto por pessoas que que não conhecemos?Solidariedade com o sofrimento alheio?Medo?Parabéns pelo blog e o texto.Fábio Oficinamissões.

Daia disse...

É, nos sensibilizamos por quem não conhecemos... Acho que isso faz de nós humanos. Nos colocamos no lugar das pessoas, das famílias das pessoas. E percebemos que estamos num mundo sempre incerto e cheio de surpresas.

Beijo prof!

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Olá Biba. Vejo nessa sua pequena constatação que o luto é a dor pelo imponderável que não conseguimos suportar logo após o fim de alguém que amamos. Talvez por conta disso, levando as coisas para um lado mais irônico mas não menos doloroso, é que não existe ateu em avião caindo e muito menos em qualquer velório. A falta de capacidade que temos de andar diante do nosso próprio fim é extrema, o que julgo ocorrer pelo fato de que essa é nossa única e absoluta certeza. Singulares e finitos que somos, atravessados pela universalidade de uma linguagem e de uma história que nos transcende e ao mesmo tempo nos é, é impossível que suportemos o fim dos nossos sentimentos e pensamentos com o consolo que qualquer religião ou filosofia nos ofereça. No máximo, detendo no fundo do peito uma crença da qual desconfiamos, aceitamos as coisas como elas acontecem, aceitamos as coisas como elas são, sem, no entanto, vermos de frente o fim tal qual ele se apresenta. Por conta disso é que creio ser necessário um senso camusiano da existência. Ou seja: a existência é sim um absurdo, mas apenas pela revolta, a qual encontra sua matriz fundamental na criação artística, é que podemos nos afirmar enquanto humanos. E foi tudo isso que vi no seu pequeno mas digno e profundo excerto. Um grande beijo, minha cara amiga.

Biba disse...

Olá Fábio, creio que é um tipo de solidariedade porque não estamos livres do mesmo fim ou alho que o valha, não é?

Beijo,
Carpe Diem!!

Biba disse...

Sim, Daia, o mundo é mesmo incerto e cheio de surpresas. Você resumiu bem o que acontece na nossa vida.

Beijo,
Carpe Diem!!

Nine Stecanella disse...

A morte de muitas pessoas é encarada de uma forma diferente, neste caso desencontrada.

Biba disse...

Gostei, Edu, "um senso camusiano da existência". Tudo é absurdo se pararmos para pensar. Daí que escrever seja necessário, dar asas ao que nos habita e desconsola. Obrigada pelas gentis palavras.

Beijo grande
Carpe Diem!!

Biba disse...

Nine,
o luto, amorte tem sempre variações de dor e apego. Neste caso, o desencontro é tudo o que restou ao personagem.

Beijo,
Carpe Diem!!

Antonio Iraildo disse...

oi biba. sumi um pouquinho. "alguma coisa aconteceu comigo". é tão bom voltar e partilhar a ternura e a sede de vida em seus textos. bjim e feliz sexta.

Biba disse...

Oi Ira, que bom que voltou! Feliz sexta para você também!!

Beijo
Carpe Diem!!

O Profeta disse...

Mil caminhos
Esta viagem sem velas nem vento
Este barco na bolina das ondas
Esta chuva miúda transborda sentimento

Amarras prendem o gesto
Arrocham um coração que bate incerto
Uma gaivota retoca as penas com espuma
Levanta voo em rumo concreto

Partilha comigo “100 Anos de Ilusão”


Mágico beijo

Biba disse...

Profeta, que lindo! Venha me ver mais vezes e deixe aqui seus lindos poemas para compartilhar. Obrigada!

Beijos
Carpe Diem!!