terça-feira, 9 de março de 2010
Ovelhas
Era para ser de pura lã, como as ovelhas. Sentiu que seus primeiros passos eram tortos e desajeitados. Pensava nas lãs e no resto. Bebeu o que mais não pode. Por isso o andar impreciso e a obsessão nas ovelhas. É que poderia jurar que as vira ali no pasto. Miragem. Não havia mais nada naquele lugar atravancado de lembranças. Parou por um instante e sentiu a primeira vertigem. Descansou. Olhou com os olhos encavados pela bebida e o excesso. Minguou nos próximos passos até cair desfalecido. Ninguém ao redor. Ficou ali, sabe-se lá o quê. Simplesmente tombado. Quando acordar vai ver o campo deserto e o cavalo encilhado. Nenhuma ovelha. Nenhuma tapera mais. Quando levantar vai sentir de novo o peso do corpo macilento. Vai querer água abundante e se jogará no córrego. Talvez morra afogado, talvez finalmente desperte.
domingo, 7 de março de 2010
Os dois
Alisa os meus cabelos e ri. Riso frouxo de criança levada. Brinca de enrodilhar os cachos entre os dedos. Porque meu cabelo é assim, cacheado. Minhas unhas vermelhas e ele a pedir um beijo. Beijo não se pede, já expliquei. Porém, apesar do riso largado, ele é tímido ainda. É que sou mulher madura e ele me desconhece por inteiro. A menina do outro lado da rua também sorri. Gosta de ver quando nos beijamos em silêncio de suspiros. São irmãos. Um dia olhei nos olhos fundos dela. Parecia uma gata. Ficou me fitando, assim marcadamente. Você já olhou assim para alguém? Entra na alma do outro e é perigoso. Como um rosnar de bicho acuado. Talvez eu me interesse mais por olhar a menina porque ela está em formação. Ele já é homem, está feito. Mas se nunca estamos prontos!! Para mim ele está. Não quero que mude nada. Que cuide de mim assim, tentando alisar meus cachos e me abrace apertado e me deixe uma folga porque não quero sufocar. Ontem olhamos o luar como dois adolescentes. Quietos. Fixos na lua sem nome. Amanhã vamos passear no Jardim Botânico. Faço umas coisas assim para contentá-lo porque ele é naturalista. Faço o que posso por esse relacionamento, mais não dá. E, enquanto o verão definha, espero as águas de março para partir. Sempre deixo alguém para trás. É como um desatino. Meu corpo se impele ao futuro, ao devir. Então, tomo o primeiro avião para algum lugar distante e deixo lágrimas nos olhos de alguém. Não faço por maldade. É por sobrevivência.
sábado, 6 de março de 2010
Encontro
As revistas desarrumadas. Ele olhou e leu as manchetes pela metade. Não estava interessado em ler. Havia uma tristeza, uma angústia. Precisava livrar-se disso e logo aquela porta se abriria e a terapeuta iria sorrir e mandá-lo entrar. Mas havia algo no ar. Quando deu por si estava conversando para dentro. Falando com Deus, assim em pensamento. Como a gente costuma falar outras coisas com a gente mesmo. Só que naquele instante, enquanto a música enlevava o lugar, ele sentiu o que disse ser a presença de Deus, então chorou mansamente. Pedia força, luz, alegria. Pedia como quem pede um pedaço de pão com manteiga. Tinha o rosto marcado pelo tempo. O corpo franzino e a boca pequena estava trêmula. Rogou um instante de paz. Quis abraçar aquele momento e torná-lo palpável. Sua prece, ou seja lá o que for, deixou-o aliviado. Tanto que quando ela abriu a porta com seu sorriso suave, ele tinha outro semblante. Lá dentro ela diria: "Você melhorou muito". Mais tarde ele ligaria o fato àquele momento diferenciado em que quis se aproximar daquilo que chamamos Deus.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Única
Ela vai tendo ganas da vida. Queria um chocolate quente porque esfriou um pouco e dá aquele prazer outonal em pleno verão. Ela deixaria tudo por quem cometer loucuras, mas é dada ao esquecimento. Não levaria muito tempo e as coisas voltariam a ser como antes: um tanto ríspidas, um tanto sem cor. Ela passa as mãos pelos quadris um pouco largos e as recolhe ao peito, sob a seda. Basta olhar essa mulher na frente da vitrine para saber que é sozinha e feita para se lembrar dela. Porque mansa e lenta, carrega geneticamente uma carga, a de ser única. Ela não teve com quem dividir seus brinquedos, por isso olha atentamente para o mostruário da loja. Vai comprar mais uma boneca. Dessas de pano. São as que coleciona. Gosta do toque no tecido delas. Das florezinhas riscadas. Do aroma que exalam. E, nessas ganas da vida, ela queria um companheiro sim, contudo é tarde. Ela experimenta a sensação de que perdeu sua chance. Para ela havia uma só. O noivo que morreu há décadas. Fiel a ele, ainda usa a aliança. Fiel a ele, nunca mais outro homem. Fiel a ele, solidão. A boneca de pano é macia, usa tranças e um chapeuzinho. Vai levar, já está pagando no caixa. Em sua casa, as outras bonecas conversam entre si, distraídas...
terça-feira, 2 de março de 2010
A pedra, Drummond
Coragem é preciso sempre. Todo dia é um recomeço. Sempre há uma pedra no meio do caminho, Drummond, eu sempre me deparo com elas. Às vezes faço a pedra rolar com certa facilidade. Noutras, o pedregulho quase me impede de ver o que há pela frente. Pedra é pedra, você sabe. Vai lá com um martelinho e fica batendo pra ver se desmancha. Nunca de never. Fico então, tentando pular, passar de lado, empurrar... O melhor mesmo era implodir a danada. Mas tem vezes que o estrago ainda é maior. Coragem, dizemos. Vamos em frente, com ou sem obstáculo, Drummond. Invento modos de suportar o desalinho da existência. Eu que sou obssessiva. Cuido para que tudo esteja no lugar. Só a pedra não tem lugar determinado. Isso me deixa louca. Daí recomeço o dia fazendo minhas contas de quanto tempo vou levar para desalojar a pedra no meio do caminho...
segunda-feira, 1 de março de 2010
Aceitação
Ando tão tonta de mim mesma que é quase um esgar de sentimentos. Procuro o inviolável e me vem fragmentos. Tudo já foi tocado, arrebatado, discutido. Ando às pressas quando meu vagar é que me move. Vagar também às pressas? Paradoxo. Reúno forças para enfrentar o dia, que será de trabalho sem diversão. Cubro os olhos com as mãos espalmadas para não ver o clarão dos raios. Não chove, só prenuncia. Ando tão afastada dos outros que tenho medo de chegar perto e ser mordida. Convulsiona-me a ideia. Os outros são tão fortes e eu... No meu vagar por aí, paraíso. No meu instante-decisivo, luz de flash que contamina. Sou ilustre desconhecida daqueles a quem vou ensinar. Sou apenas uma mulher em busca de albumina. Todos os sonhos são díspares. Os pés escolhem o chão, mas alma, essa quer o espaço luminoso. Andar tonta de si é como arremessar-se no interior da coisa. É como riscar os fósforos e fugir. Ando assim, alheia. Busco o meu feitiço para encarar tua frase. Faço-me fada madrinha e aceito. Vamos ludibriar o tempo e requisitar as horas perdidas, quando não se faz nada porque estar tonteando pela vida parece a única saída. Deixo os barcos no cais e agora sigo pela trilha estreita. Vagueio e me vejo descabelada, em desvario. Isso é tudo que se pode obter na lucidez de cada dia.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Florbela Espanca
A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
No aquário
Pálida, desligou o ventilador. Calor de mil graus. Chuva fina lá fora e os homens trabalhando na reconstrução do pátio do estacionamento. Espiou pela janela, entre as cortinas cor de cenoura. Hábito antigo esse de espiar pelas cortinas. Desde criança. Desde sempre, porque a mãe cutucava o lá fora assim, entre persianas. Viu o rosto no espelho: pálida. Devia ser a medicação. Ou, vai saber. Tanto calor assim baixa a pressão. Toma um gole de licor de menta. Gosta de sentir o sabor entre os lábios. Passa a língua de leve, sem pressão, só para sentir mais. O gosto se espalha e a boca toda é menta refrescante. Ele podia se perder no meu beijo licorado. Ele bem que podia voltar e ver que o estacionamento está sendo restaurado e há ruídos e batidas de pás no chão. Ele bem que podia entender que o que fiz foi o certo. Ele... No entanto, arrependesse. Ele se foi com o livro do Poe, a carteira vazia e uma mala desarrumada. Pegou o cachorro também. Foi assim. Isso acontece. Será? A palidez deve ser de saudade dele, tão intensa. Velocidade da luz e estão juntos no aquário, olhando-se como olham os peixes. Fecha os olhos e preenche o escuro com a imagem dele, peixe no aquário peixe no aquário para sempre.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Redemoinho
Lembro coisas tão antigas que nem sei se as vivi realmente. É um redemoinho de imagens. Uma torção de sentimentos. Ouço Sade para esquecer, mas a memória apenas finge esquecimento. Tenho gosto de morango e chocolate na boca entreaberta. Tudo passa como um filme minimetragem. Enjoo das figuras que vejo e me vejo também. Sou mais magra e mais atenta, hoje estou distraída pelo gole de vinho tinto. Amanhã imagino mais uma porção de coisas. Amanhã acordo como todo dia e relaxo ao som de Sade. Tenho esse gesto contido porque meu coração fervilha e o medo do outro me aguça a pele. Sempre é bom ter cuidado com o outro, evitar confrontos. Evitar olhar direto nos olhos ameaçadores. O gosto do vinho, dos morangos e do chocolate se misturam como as imagens na minha mente. Penso em desaparecer. Viver ao revés. Contar os dias para trás e aí me livrar dessa colisão do tempo. Vou para o futuro mas a imago que fica é passado mordaz. Disco teu número várias vezes mas não, não termino de apertar as teclas. Medo e vontade. Só que você é esse outro que me vem em sonhos e imagens corrediças. Me alinho, realinho e tomo outro gole de vinho. Sempre tinto. Sempre seco.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Esperança
Julgava ter perdido você nos labirintos dos caminhos. E são tantos! Então reencontrei você de um modo singular. Hoje nossas vozes se parecem e esqueci as vezes em que você esteve tão longe. Esqueci porque amar você é coisa que faço desde menina e é preciso conservar o amor embora distante. Você me conta sua sina. Eu lhe conto a minha. Vivemos sob o mesmo sol? Quem sabe? Hoje eu queria ver o mar, pra ter um pouco de água salgada na minha garganta ardida. Queria que você me levasse para passear pelas ruas, sem compromisso de nada, como se fazia antigamente. Só andar e descobrir casas, becos, paralelas. Você gostava de caminhar comigo ao seu lado e nos diziamos coisas como: "É era de Aquário". Tudo isso se foi mas as lembranças reacendem depois de seu telefonema. Mensagem secreta na secretária eletrônica. Mas eu entendi. Porque eu sempre entendi todas as coisas em você de um modo que você nunca notou porque, distraído, olhava só para você mesmo. Estávamos crescendo e isso explica tanta coisa, não é? O bom é saber que eu não perdi você como tinha imaginado. E, os labirintos, eles sempre estarão entre nós, no meio de nós. Então eu digo pra você que há saída, com Minotauro e tudo. Queria dizer isso pra você acreditar como sempre acreditou em mim.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Clarice Lispector
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Grão
Via no ar da sala a poeira transparente que abarca os dias. Não essa que se posta sobre as coisas. Olhava para o indizível como quem faz uma trança em cabelos de criança. Ontem ela chorou o choro dos inocentes. Daqueles que se culpam por tudo quando a vida é assim mesmo, cheia de truques e pegadinhas. Seu choro-lamento inundou o quarto de uma dor infinita. A gata, olhos semicerrados, fingia não ver que ela se contorcia na dor. Hoje, olhando a poeira dos dias dançando no ar, ela tem os os olhos inchados. Pensa que amanhã vai ser outro dia, como quis Chico Buarque, como querem todas as pessoas, mesmo as que não sabem cantar. Ela não sabe cantar. Vive sem voz, sempre pigarreando. A paisagem na neblina, pensa, enquanto com a mão delicada ousa tocar o ar e vê o movimento suave das partículas sob a luz tênue que entra pela janela. Fecha os olhos, pensa nele. Nos olhos, sempre. Porque é por eles que sabemos tudo. Palavras são somente palavras, filosofava. Cada grão de poeira invisível lhe dava vontade de ser também um. Suspirou aflita. Ela era um tanto aflita. Fingiu segurar o pó com os dedos em pinça. Fingiu que podia tudo o que quisesse, inclusive pegar o inaudito. Soprou a poeira imaginária e recostou-se sobre o sofá. Uma lágrima fez a curva do nariz e outra ficou empoçada no olho esquerdo. Assim é que o dia de amanhã seria melhor que o de hoje, bastava esperar flutuando como um granulo de poeira.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Jorge Drexler
El velo semitransparente
Del desasosiego
Un día se vino a instalar
Entre el mundo y mis ojos.
Yo estaba empeñado en no ver
Lo que ví, pero a veces,
La vida es más compleja de
Lo que parece.
Del desasosiego
Un día se vino a instalar
Entre el mundo y mis ojos.
Yo estaba empeñado en no ver
Lo que ví, pero a veces,
La vida es más compleja de
Lo que parece.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Letícia
Um dia Letícia, você escreveu uma linda, lindíssima carta para mim em seu blog. Faz tempo isso, você havia terminado de ler O Imprevisto. Era mês de junho se bem me lembro e eu não disse nada. Nenhuma palavra de pura emoção vivida nas tuas palavras. Nunca ninguém escreveu carta mais bonita para mim e nunca nenhuma delas foi publicada, assim, pra toda gente ler. Hoje, perdida nos recôndidos de mim, lembrei da carta e me deu saudade de você. Como se eu a tivesse visto ontem e hoje já sentisse o vagar da lembrança. Esta não será uma longa e bela carta. Esta mais para um bilhete. Para te dizer do quanto meu afeto te abraça ao longe e do quanto você é especial para mim. Não, não simplesmente especial, do jeito torto que as pessoas dizem. É mais que isso, você me entende, eu sei. Pois hoje, no calor do verão sulista, olho para seu livro aqui do meu lado e saio relendo. Vejo as marcas da vida, do amor e da morte em tudo o que fazemos. Ser escritor é isso, sair do casulo de vez em quando para se mostrar timidamente aos outros. Logo vem a incerteza e já queremos de volta nosso cantinho para nos resguardarmos um pouco, feitas de um leve contentamento que somos. Letícia, dedico o dia de hoje pra você no meu calendário restrito. Um dia de sol, luz e energia. Carpe Diem!!
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Loucura
Pensava coisas sem sentido. Coisas bizarras, irreverentes, trágicas. Sabia que o funcionamento da mente não é assim o tempo todo. Não podia ser, questionava. Teve dias que eram como desvarios. Mente inquieta, ideias loucas. O esquisito era que ficava deitado na cama somente olhando para o teto, esperando passar o turbilhão de imagens que lhe vinham ao cérebro. Quanto mais ficava assim, piores eram os resultados. Temia levantar-se e cair. Tinha medo de ir lá fora e ser atropelado na calçada. Supunha que seria assaltado ou violentado. Seus pensamentos se desencadeavam com uma força destruidora e, dentro dele, corria um bicho ferido tentando amanhecer.
Assinar:
Postagens (Atom)
